Sobre os Clássicos
Mesmo que tenha crescido numa casa com muitos livros, clássicos em sua maioria, acho que sempre tive a impressão de que essas obras “não eram pra mim”. Fosse pelo simples fato de que Percy Jackson soava muito mais legal ou porque parecia lógico que nenhum deles falaria nada que me interessasse. Assim, cheguei à vida adulta com centenas de livros lidos nas costas, mas os poucos clássicos que lera, integralmente, restringiam-se à minha primeira infância em que muito mais rabiscava os livros do que lia.
Não consigo lembrar bem dessas obras que me acompanharam enquanto era alfabetizada, o micro-cânone disponível na estante dos meus pais era recheado de tremas, cousas e pharmacias. Adulta, parecia que me faltava muito para ousar tocar empeças tão sagradas da literatura. Precisava ler mais, muito mais, sobre incontáveis coisas, antes de sequer pensar em compreender a profundidade de O Cortiço ou um Dom Casmurro.
Em algum ponto da vida, clássicos começaram a significar duas coisas para mim: velho e complicado. Que criança leria qualquer coisa apresentada dessa forma? Eu certamente não, o que é irônico, já que o primeiro livro que me lembro de pegar na vida foi Dom Quixote de la Mancha. Não que eu lembre muito além do fato que gostava muito do livro.
De dois ou três anos para cá, tive a feliz surpresa de descobrir que clássicos são, por definição, para todos. Podem até não ser sua leitura favorita, podem não te tocar como tocaram outros, você tem até o direito de pensar que foi um desperdício do seu tempo e do seu dinheiro aquela obra específica. Mas, como compêndio, é difícil dizer que os clássicos são um único adjetivo de qualidade. Nem só “bons”, nem só “ruins”. Por isso decidi escrever esse texto.
Nasci pobre, numa casa que calhava de ter mais livros do que comida com frequência, nasci como minoria de gênero e nasci brasileira. São todas características que me levaram a crer por muito tempo que nenhum clássico poderia ser para mim. Hoje me identifico também como queer em toda grandeza e nuance dessa palavra. Excêntrica, disruptiva e subversiva sempre que possível. Por muitos anos, ouvi que essas obras não falavam de gente pobre, de gente queer, de gente latinoamericana como eu conhecia. Não os sorrisos plásticos da Paulista, o sol idolatrado de Ipanema, mas as bocas cheias de dentes e fome desse país, as mãos sujas de terra e as costas sempre grudando de suor na camisa em um ônibus apertado.
Creio que muitos de vocês já tenham ouvido isso também — e até acreditado — e escrevo esse texto com a simples intenção de avisar: isso é mentira.
O cânone é, sim, majoritariamente homem, branco e burguês pelo Ocidente inteiro (não ouso opinar no cânone do Oriente, se é que utilizam a mesma terminologia, já que meu contato se limita a dois formalistas russos). Isso se dá, simplesmente, porque nossa sociedade é misógina, racista e capitalista. Nossa literatura não pode se isolar do contexto no qual está inserida, mas ainda pode subverter, questionar e até ousar sonhar com alternativas a esse contexto.
Para além das vozes autorais diversas, tento eu mesma recuperar cada mulher esquecida dentro do gótico com tudo que posso, temos uma infinidade de mundos possíveis. Recentemente li Esfinge, um clássico nacional escrito por Coelho Netto, e esse livro publicado em 1907 elabora sutilmente questões de sexualidade e gênero no calor do Rio de Janeiro. Tudo com um toque de mistério. Na linha da questão da sexualidade temos O Retrato de Dorian Gray (1890), Moby Dick (1851), Carmilla (1872) e até Drácula (1897) como clássicos que retratam a questão (uns como foco, outros por puro preconceito de seus autores). Na crítica à aristocracia há O Vampiro (1819) de Polidori, na crítica à monstruosidade dos homens Frankenstein (1818).
Se Ann Radcliffe escrevia mulheres em padrões conformistas com as noções de gênero de sua época, como vemos em Os Mistérios de Udolpho (1794). Charlotte Dacre nos traz protagonistas cheias de nuance e falhas, impetuosas, e senhoras de suas narrativas em obras como Zofloya or the Moor (1806). Vale ressaltar que ambas desafiavam a norma por simplesmente escreverem suas obras e publicarem. Para tudo que algum clássico não se propõe a ofertar, outro foca exatamente nesse aspecto.
Temos autorias negras muito além de Machado de Assis, que não deve ser esquecido de forma alguma, mas é impossível não trazer Carolina Maria de Jesus com Quarto de Despejo. Temos obras sobre os grandes heróis como Odisseu, mas também temos obras sobre uma Srta. Brill indo visitar o parque num fim de semana qualquer.
Há tantos clássicos quanto há estrelas no céu noturno, não canso de receber indicações do cânone de outros países dos quais nunca ouvi falar. Não canso de problematizar sim a questão do cânone, mas me canso, sim, de ouvir que minha gente é burra demais para essas leituras; canso, sim, de ouvir que minha gente não tem voz ou lugar no passado. Informo, com prazer, que a primeira obra da humanidade de que temos registro, a Epopeia de Gilgamesh, retrata amor entre dois homens. O termo homossexual não existia, mas nós interpretamos o mundo com o repertório que temos, não é mesmo?
Eu comecei a me aventurar pelas veredas do cânone, brasileiro e mundial, há pouquíssimo tempo, o que significa que há ainda mais obras que ainda nem conheci lá fora. Ainda mais vozes, ainda mais representações, ainda mais textos que tentam apagar com frequência. Mulheres, pessoas não-brancas, pessoas queer, pessoas de religiões não cristãs; todos eles, guardados em prateleiras, esperando para serem lidos e lembrados. Para Eagleton (2019) por mais que o livro seja um objeto físico que existe mesmo quando o derrubamos atrás da cômoda e esquecemos lá pelos meses seguintes, o mesmo não pode ser dito do texto. Aí entra um princípio linguístico, todo texto só existe quando é significado, e não existe significação sem decodificação — ou seja, leitura, nesse caso.
Não digo que só se leia as autorias mortas, nem que tais obras são superiores às contemporâneas, só quero lembrar que existem e são nossas, da nossa gente, e nós vamos entender tudo que houver para ser entendido no momento da leitura. O ato de ler não é uma partida rankeada nem um teste do DETRAN, não é decisivo, eu posso ter lido Dom Quixote aos 6 anos de idade e não lembrar nada e posso, também, relê-lo aos 25 e me regozijar no que encontrar. Não existe competição. É ler pelo prazer, ler para escutar o que disseram antes de nós, e quem sabe entender. A vida, seus vizinhos, aquela senhora com pele de raposa no parque, o afeto de dois marinheiros ou simplesmente cores no mundo. Porque também podemos ler, entender, problematizar, não gostar, criticar, e nos apoderar dos clássicos.
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