✱ meu sorriso é uma faca que corta essa introversão

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Vamos ali

Experimentei a calçada e meu corpo sustentou minha vontade. Ou a vontade sustentou o corpo?

Passei pelas ruas perturbada, pelo que? O fluxo de pessoas, o barulho dos carros, as casas nunca antes vistas. Algumas bonitas, convidativas, com bichinhos e cara de casa. Outras parecendo com clínicas de estética ou caixas de sapato. Estas tinham bandeiras na entrada.

Ah, as calçadas irregulares. A cada passo, cuidado. O zigue zague por entre o cimento quebrado, grama crescendo a revelia, poças de lama e carros mal estacionados.

Ainda assim a vontade sustentou o corpo. Ou o corpo sustentou minha vontade? Sei que segui, a tarde caia, a comerciante sorria e eu me ia.

Flanando

Ah pra que me enganar A viagem vai ser longa E eu não tenho onde ficar Ah fico no mesmo lugar No fundo dessa onda Lutando pra voltar A ser eu Essa noite tive medo E o medo me comeu Ah eu evito olhar Balbucio qualquer coisa E torço pra passar

Tudo certo quando está tudo em seu lugar Como eu sei como eu sei que eu voltei

Ah muito tempo no mar Esqueci como se anda Não sei como tocar Ah eu me deixo levar Deslizo pra esse beijo Como um jeito de voltar A ser eu Um ruído no meu peito E não vejo mais morfeus Ah me deixo flanar Perambulo sem um rumo Sem vontade de parar

Tudo certo quando está tudo em seu lugar Como eu sei como eu sei que eu voltei A ser eu

Na penumbra

Passou por entre as frestas um feixe de luz dúbio, meio cor meio espectro e pousou distraído formando seu rosto na penumbra como um artesão forma a cerâmica fria e fez brilhar a meia luz seus olhos quentes.

Me perdi por um segundo, o que era mesmo? Era ceticismo meu, isso que era. A luz te formou e eu não acreditei, por coisa de segundos fiquei como quem encara uma tarde debaixo do sol vendo o vento desfilar entre as folhas das árvores.

Não foi o sol que te formou na luz, nem foi a luz, nem as frestas que deixaram a luz passar. Há algo por debaixo de tudo mais que faz tu te formar no escuro mesmo quando não eu posso enxergar.

Eu sei que tu te forma e basta.

Quase isso

As recordações não são exatas E vem misturadas com rancor Sem exatidão minhas palavras Soam inexatas onde eu for

Então eu pensei Que me guardar Fosse manter A minha paz (ou quase isso)

A degradação dessas marcas Fluem em um eco do que sou Uma discussão já encerrada É assunto velho e já passou

Bem, eu menti Sobre tudo mais Porque existir Meio que tanto faz (Ou quase isso)

Meu sorriso é uma faca Que corta essa introversão É ilegítimo, uma farsa Mas na hora faz sua função

Daí eu entrei Mais dentro de mim O que encontrei Nem eu entendi Não enfrentei Nem desisti Só me sentei E fiquei aqui (Ou quase isso)

Olha esse céu comigo Estamos em lugares tão distintos Mas temos o mesmo inimigo (Ou quase isso, ou quase isso)

Eu não estava lá

Eu não estava lá Quando tudo aconteceu e só Quero entender o que passou Eu não quero voltar atrás Não gosto de lembrar Mas sei que isso me formou Quero esquecer o que passou Quero poder desligar

É fácil dispersar E fugir pra algum outro lugar Eu era um outro alguém Que não era ninguém Paro pra pensar Onde tudo se perdeu, será Que algum dia estive bem E estive aqui também

Não é justo que um só alguém Desafine todo som Não é justo que um só alguém Apague o brilho das estrelas Não é justo que um só alguém Manche tudo que é bom Não é justo, mas aconteceu Em algum lugar lá atrás

Pras estrelas

Eu vi uma estrela no olhar de quem me ama sumir Eu vi minha alma mudar se afastar e fugir Ouvi uma voz me falar que eu não vou conseguir Eu tento me encontrar, achar onde eu me perdi

Se eu pudesse consertar cada estrela A verdade estaria hoje na minha mesa Porque no fundo tudo é só um negócio E eu não sei mais onde enfiar meu ócio

Não há paz onde eu não estou Não há paz onde eu não sou

Senti o mundo girar, me expulsar e partir Então tentei acordar e ver onde eu me meti Ouvi uma voz gargalhar, zombar de mim ao cair Eu tento me levantar, me ajeitar e fingir

Se eu pudesse fugir agora pras estrelas Eu voaria pra bem longe com certeza Mas acordar é tudo o que eu posso Levantar e tentar encarar seus olhos

Não há paz onde eu não estou Não há paz onde eu não sou

Arte barata

Os justos não virão É só alucinação E nada mais irá vingar Ah eu sei

Toda enganação Ao toque de um botão E nada mais importará Ah eu sei

Que você não vai notar Se não restar Um olhar humano Pra falar: “Eu estive aqui e senti Meu pesar e minha alegria Pus num altar E te dei”

Não sei você Mas eu notarei