meu sorriso é uma faca que corta essa introversão

contato. mastodon.

Voz e luz

Um pouco de voz Um pouco de luz Tudo que me falta Tudo que me exclui Um pouco de nós Afasta quem fui A mão que me cala Na contraluz do véu

Tenho tanto pra dizer Mas no hora não sai Tento me entender Tento achar minha paz Tento me esquecer São memórias demais E a mundo não para O mundo não para

Vejo bem você E ancoro no cais Mas a noite o mar Leva o breu e desfaz Fecho os olhos pra ver E escutar minha voz Mas o vida não para O vida não para de passar

E a mundo não para O mundo não para de girar

Ouça minha voz Sinta minha luz Não deixe que eu Me perca no mar

Com meu pouco de voz e luz Um pouco de voz e luz

Sonhos 2

Eu posso deitar, fechar meus olhos e esquecer: tudo que me assombra, tudo que me desabona, tudo que me desaprova.

Sonhos

Eu tentei te encontrar Em meus sonhos Mas você não estava lá.

Estação lunar

Alo estação Alguém na escuta? Temo que não A mensagem é curta:

“Estou suspensa no espaço Sem estação pra ancorar Minha nave plana muito alto Sem um mapa estelar Eu me perco e eu me acho Mas sem ter pra onde voltar Minha missão é um passo em falso Quem virá me resgatar?”

Estação lunar Solicito resgate Se alguém me escutar Segue minha mensagem:

“O infinito me olhou e o encarei Vaguei entre estrelas e apaguei Em meio a imensidão desvaneci Quem me escutar me encontre aqui”.

Incrível

Você é fácil o melhor que já tive na vida. E isso me tira um tanto do rumo. Fico com medo de estar sendo demais em algumas coisas e de menos em outras. Talvez esteja sendo. E daí vem um pavor de um dia estragar tudo.

Porque a verdade é que eu mal posso acreditar no presente. Eu olho para minha vida, e fora uma ou outra coisa fora do lugar, eu mal posso acreditar na sorte que eu dei. Eu olho ao redor e simplesmente não acredito. Lembro da bagunça e loucura de onde eu vim e não sei dizer como as coisas tomaram jeito. É como surgir limpa e calma saindo de um mar revolto de lama. É incrível.

De alguma forma enquanto deitava de lado com um notebook vendo filmes estranhos sozinha, cumprindo minha planilha de scifi, ali há uns 10 anos atrás, eu talvez tenha formado esse presente de algum jeito torto e estranho como são as coisas de que são feitas a vida. E ainda assim me sinto como quem se perdeu em um rua estranha e achou uma nota de 100.

O que me preocupa mesmo é que eu estou quebrada faz tempo, e já entendi que assim vai ser, como um vaso que cai, estilhaça em mil pedaços e mesmo colado terá essas marcas, e nunca mais será o mesmo. Queria estar inteira para o melhor que já tive, mas sou o que posso ser, dou o que tenho e sigo como posso.

Sem peso

Queria esquecer que estou suspensa no espaço e ao mesmo tempo aproveitar que estou suspensa no espaço. Não tem sentido, nem tem jeito. É uma questão de perspectiva e todas elas estão distorcidas, contorcidas, deformadas.

Vaguear no espaço sabendo que depois vou continuar a deriva acaba não tendo o mesmo sabor. Não que eu não aprecie o infinito, o vazio, a ausência, a leveza. Não que eu não saiba mais simplesmente me deixar flutuar sem rumo, rolar, me perder e me achar. Mas e depois?

Alguém virá ao meu resgate? Ou terei de achar um jeito de partir deste não-lugar eu mesma? A vista é bonita, mas ela aponta para lugar nenhum.

Dissolver

Eu tento dissolver Eu penso em dispersar Eu posso desaparecer Mas não vou compensar Eu não sustento a voz Eu não me aguento em pé Eu vou pra casa só Perder a minha Fé em mim

Eu tento levantar Mas só penso em dormir Posso recomeçar Tentar não desistir Eu lembro de quem fui E de quem não quero ser O tempo me dilui Me faz enlouquecer E no fim Só sobrou

A luz do sol
Sobre mim Sobre nós E no fim Foi assim.

Vamos ali

Experimentei a calçada e meu corpo sustentou minha vontade. Ou a vontade sustentou o corpo?

Passei pelas ruas perturbada, pelo que? O fluxo de pessoas, o barulho dos carros, as casas nunca antes vistas. Algumas bonitas, convidativas, com bichinhos e cara de casa. Outras parecendo com clínicas de estética ou caixas de sapato. Estas tinham bandeiras na entrada.

Ah, as calçadas irregulares. A cada passo, cuidado. O zigue zague por entre o cimento quebrado, grama crescendo a revelia, poças de lama e carros mal estacionados.

Ainda assim a vontade sustentou o corpo. Ou o corpo sustentou minha vontade? Sei que segui, a tarde caia, a comerciante sorria e eu me ia.

Flanando

Ah pra que me enganar A viagem vai ser longa E eu não tenho onde ficar Ah fico no mesmo lugar No fundo dessa onda Lutando pra voltar A ser eu Essa noite tive medo E o medo me comeu Ah eu evito olhar Balbucio qualquer coisa E torço pra passar

Tudo certo quando está tudo em seu lugar Como eu sei como eu sei que eu voltei

Ah muito tempo no mar Esqueci como se anda Não sei como tocar Ah eu me deixo levar Deslizo pra esse beijo Como um jeito de voltar A ser eu Um ruído no meu peito E não vejo mais morfeus Ah me deixo flanar Perambulo sem um rumo Sem vontade de parar

Tudo certo quando está tudo em seu lugar Como eu sei como eu sei que eu voltei A ser eu

Na penumbra

Passou por entre as frestas um feixe de luz dúbio, meio cor meio espectro e pousou distraído formando seu rosto na penumbra como um artesão forma a cerâmica fria e fez brilhar a meia luz seus olhos quentes.

Me perdi por um segundo, o que era mesmo? Era ceticismo meu, isso que era. A luz te formou e eu não acreditei, por coisa de segundos fiquei como quem encara uma tarde debaixo do sol vendo o vento desfilar entre as folhas das árvores.

Não foi o sol que te formou na luz, nem foi a luz, nem as frestas que deixaram a luz passar. Há algo por debaixo de tudo mais que faz tu te formar no escuro mesmo quando não eu posso enxergar.

Eu sei que tu te forma e basta.