Vamos ali
Experimentei a calçada e meu corpo sustentou minha vontade. Ou a vontade sustentou o corpo?
Passei pelas ruas perturbada, pelo que? O fluxo de pessoas, o barulho dos carros, as casas nunca antes vistas. Algumas bonitas, convidativas, com bichinhos e cara de casa. Outras parecendo com clínicas de estética ou caixas de sapato. Estas tinham bandeiras na entrada.
Ah, as calçadas irregulares. A cada passo, cuidado. O zigue zague por entre o cimento quebrado, grama crescendo a revelia, poças de lama e carros mal estacionados.
Ainda assim a vontade sustentou o corpo. Ou o corpo sustentou minha vontade? Sei que segui, a tarde caia, a comerciante sorria e eu me ia.
Flanando
Ah pra que me enganar
A viagem vai ser longa
E eu não tenho onde ficar
Ah fico no mesmo lugar
No fundo dessa onda
Lutando pra voltar
A ser eu
Essa noite tive medo
E o medo me comeu
Ah eu evito olhar
Balbucio qualquer coisa
E torço pra passar
Tudo certo quando está tudo em seu lugar
Como eu sei como eu sei que eu voltei
Ah muito tempo no mar
Esqueci como se anda
Não sei como tocar
Ah eu me deixo levar
Deslizo pra esse beijo
Como um jeito de voltar
A ser eu
Um ruído no meu peito
E não vejo mais morfeus
Ah me deixo flanar
Perambulo sem um rumo
Sem vontade de parar
Tudo certo quando está tudo em seu lugar
Como eu sei como eu sei que eu voltei
A ser eu
Na penumbra
Passou por entre as frestas um feixe de luz dúbio, meio cor meio espectro e pousou distraído formando seu rosto na penumbra como um artesão forma a cerâmica fria e fez brilhar a meia luz seus olhos quentes.
Me perdi por um segundo, o que era mesmo? Era ceticismo meu, isso que era. A luz te formou e eu não acreditei, por coisa de segundos fiquei como quem encara uma tarde debaixo do sol vendo o vento desfilar entre as folhas das árvores.
Não foi o sol que te formou na luz, nem foi a luz, nem as frestas que deixaram a luz passar. Há algo por debaixo de tudo mais que faz tu te formar no escuro mesmo quando não eu posso enxergar.
Eu sei que tu te forma e basta.
Quase isso
As recordações não são exatas
E vem misturadas com rancor
Sem exatidão minhas palavras
Soam inexatas onde eu for
Então eu pensei
Que me guardar
Fosse manter
A minha paz (ou quase isso)
A degradação dessas marcas
Fluem em um eco do que sou
Uma discussão já encerrada
É assunto velho e já passou
Bem, eu menti
Sobre tudo mais
Porque existir
Meio que tanto faz (Ou quase isso)
Meu sorriso é uma faca
Que corta essa introversão
É ilegítimo, uma farsa
Mas na hora faz sua função
Daí eu entrei
Mais dentro de mim
O que encontrei
Nem eu entendi
Não enfrentei
Nem desisti
Só me sentei
E fiquei aqui (Ou quase isso)
Olha esse céu comigo
Estamos em lugares tão distintos
Mas temos o mesmo inimigo
(Ou quase isso, ou quase isso)
Eu não estava lá
Eu não estava lá
Quando tudo aconteceu e só
Quero entender o que passou
Eu não quero voltar atrás
Não gosto de lembrar
Mas sei que isso me formou
Quero esquecer o que passou
Quero poder desligar
É fácil dispersar
E fugir pra algum outro lugar
Eu era um outro alguém
Que não era ninguém
Paro pra pensar
Onde tudo se perdeu, será
Que algum dia estive bem
E estive aqui também
Não é justo que um só alguém
Desafine todo som
Não é justo que um só alguém
Apague o brilho das estrelas
Não é justo que um só alguém
Manche tudo que é bom
Não é justo, mas aconteceu
Em algum lugar lá atrás
Pras estrelas
Eu vi uma estrela no olhar de quem me ama sumir
Eu vi minha alma mudar se afastar e fugir
Ouvi uma voz me falar que eu não vou conseguir
Eu tento me encontrar, achar onde eu me perdi
Se eu pudesse consertar cada estrela
A verdade estaria hoje na minha mesa
Porque no fundo tudo é só um negócio
E eu não sei mais onde enfiar meu ócio
Não há paz onde eu não estou
Não há paz onde eu não sou
Senti o mundo girar, me expulsar e partir
Então tentei acordar e ver onde eu me meti
Ouvi uma voz gargalhar, zombar de mim ao cair
Eu tento me levantar, me ajeitar e fingir
Se eu pudesse fugir agora pras estrelas
Eu voaria pra bem longe com certeza
Mas acordar é tudo o que eu posso
Levantar e tentar encarar seus olhos
Não há paz onde eu não estou
Não há paz onde eu não sou
Arte barata
Os justos não virão
É só alucinação
E nada mais irá vingar
Ah eu sei
Toda enganação
Ao toque de um botão
E nada mais importará
Ah eu sei
Que você não vai notar
Se não restar
Um olhar humano
Pra falar:
“Eu estive aqui e senti
Meu pesar e minha alegria
Pus num altar
E te dei”
Não sei você
Mas eu notarei