Bebendo na fonte do Pajeú das Flores:
“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 1]
Esse repente em decassílabo sempre me deixava ENCAFIFADO, porque sou nordestino e muita coisa cantada no poema eu não sabia. Aí, com medo de perder minha cidadania, fui pesquisar e vou trazer esse estudo dirigido para cá aos poucos, ilustrando as estrofes e os termos (que acho que são) mais complexos/regionais.
Obs.1 – Algumas coisas são obvias e eu vou ilustrar mesmo assim e outras vão passar, mas se ficar alguma dúvida pode me perguntar, se quiser. Obs. 2 – Não precisa ser nordestino pra valorizar o Nordeste, é só liberdade poética para compor o mote, como haverá outras liberdades ao longo do repente.
ESTROFE 01
Tem de ser de origem nordestina Pra beber água fria de cabaça Calcular a distância de uma braça Entrançar uma cerca de faxina Atirar de espingarda lazarina Palitar com espinho de facheiro Com a faca rapar o juazeiro Fazer pasta pra o dente embranquecer Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro
ANÁLISE:
• Cabaça é o fruto de algumas espécies da família das cucurbitáceas (mesma das abóboras, pepinos, melões, melancias, buchas vegetais...), eu acredito que principalmente da Lagenaria siceraria (conhecida por Porongo ou cabaceira) que é a mesma que se faz a cuia de chimarrão. Depois de desidratado e limpo vira tipo um copo Stanley do sertão, a proteção do sol deixa a água sensivelmente mais fria, talvez.
• Braça é uma antiga medida do sistema imperial (eca) que equivale a 2,20m. Até onde sei, é uma métrica que se popularizou no meio rural ser utilizada na metragem da terra cedida aos trabalhadores imigrantes.
• A cerca de faxina é construída de varas finas de madeira seca (inclusive é daí que vem o nome, porque faxina também denomina esses gravetos usados geralmente como lenha) entrelaçadas vertical ou horizontalmente, podendo ser construída sem arames, muito usada para cercar terrenos ou conter animais.

• A espingarda lazarina é uma arma de baixo calibre originalmente fabricada por Lazarino Cominazzo, utilizada antigamente para a caça de subsistência de animais de pequeno porte.
• Facheiro ou mandacaru-de-facho (Pilosocereus pachycladus) é uma cactácea endêmica do nordeste, utilizada às vezes para alimentação animal (após retirados os espinhos, que são grandes e numerosos). Ouvi dizer que o nome facheiro é porque os espinhos secos são “inflamáveis”, inclusive os braços secos do cacto eram usados como tochas, tochas essas chamadas de FACHOS, o que também teria originado a expressão Abaixe o facho usada para mandar alguém sossegar ou chamar menos atenção, tal qual quando se “remove a tocha do campo de visão do imimigo”.

• Ziziphus joazeiro é uma árvore de grande porte que produz frutinhos comestíveis (os bodes adoram) e que tem uma casca rica em saponinas, que fazem espuma e tem propriedades de detergentes, por isso a raspa da casca de juá é usada como pasta de dente e em outros produtos cosméticos e medicinais até hoje.
Esse foi o começo do que espero que seja uma série, até a próxima estrofe!