De tão poeta morreu pobre

Olá, navegante! Eu sou um vitu, aqui posto textos duvidosos e poemas de rimas fracas de autoria própria e também verdadeiras obras primas dos grandes mestres.

“Quando o ano de inverno é controlado/muda tudo na vida do sertão.” — Valdir Teles & Zé Fernandes [PARTE 2]

Essa é a segunda parte da análise, caso não tenha lido a anterior:

1ª estrofe

ESTROFES 02 e 03:

O processo de raro aquecimento Cria nuvens compactas do espaço Uma espessa camada de mormaço Sai da terra e invade o firmamento O relâmpago executa um movimento Cujo raio transpõe a imensidão E Jesus desce escanchado num trovão Para ver como o chão está molhado Quando o ano de inverno é controlado Muda tudo na vida do sertão

Quando o mês de janeiro muda o clima O verão vai embora, a chuva volta Num pedaço de nuvem que Deus solta A riqueza dos pobres cai de cima O matuto da roça se anima Pega um caco de enxada e cava o chão Vai de novo fazer a plantação Que a empresa do pobre é seu roçado Quando o ano de inverno é controlado Muda tudo na vida do sertão

ANÁLISE:

• Escanchado: Nessas duas estrofes há apenas belíssimas metáforas para ilustrar como o evento do inverno é percebido pelo sertanejo, tanto de maneira empírica da observação dos fenômenos da natureza, na espiritualidade associada ao evento e na importância “social” para as famílias que sobrevivem da terra. Talvez, a única coisa que seja mais difícil de entender para quem não é nordestino/do interior é o termo escanchado que significa estar sentado de pernas abertas ao redor do assento, ou montado, como se monta no cavalo.

ESTROFE 04:

A novilha no cio convida o touro Pra fazer a primeira intimidade O boi manso com sede e com saudade Reencontra o antigo bebedouro O açude inaugura o sangradouro Com a água que sobra do porão E o riacho se arrasta pelo chão Carregando a sujeira do passado Quando o ano de inverno é controlado Muda tudo na vida do sertão

• A novilha no cio convida o touro pra fazer a primeira intimidade: dá-se o nome de novilha a vaca jovem, que nunca ficou prenhe, então essa será a “primeira intimidade” dela. Já touro é a nomenclatura dada ao animal macho adulto selecionado para a reprodução. O uso da expressão “convidar” nesse contexto é perfeita, pois aceitar a monta (como se diz tecnicamente) é o principal sintoma de estro (o mesmo que cio), ou seja, quando a vaca permite que o touro a monte é porque aquele é o momento certo do ciclo estral para que o óvulo, que será liberado em algumas horas, seja fecundado.

• Boi manso: por outro lado, o termo boi é dado ao animal castrado, destinado a geralmente a engorda ou ao trabalho no campo. Com a remoção dos testículos, é reduzida a produção da testosterona, de modo que o animal não tendo a necessidade/interesse de competir pela fêmea se torna menos agressivo e menos territorialista, ficando mais dócil do que um animal inteiro (não-castrado).

• Porão: é a parte mais funda do reservatório, a que mais demora a secar no período seco.

• E o riacho se arrasta pelo chão carregando a sujeira do passado: mais uma vez o poeta compõe de maneira que faz sentido literal, com a água arrastando o entulho acumulado em seu caminho, como também faz sentido figurado, com a época das chuvas apaziguando as mágoas da seca que agora ficaram para trás.

Eu não sou minhas memórias ruins, mesmo que as relembre constantemente. Eu não sou minhas más escolhas, porém as priorizei na maioria das vezes. Eu não sou meus erros, que superam em muito o número de vezes em que acertei. Eu não sou os meus medos, ainda que reúna inúmeros. Eu não sou minhas mentiras, embora as tenha jurado. Eu não sou minhas lágrimas, apesar de derramá-las silenciosamente toda noite. Eu não sou minha autopiedade, mas me apiedo enormemente de mim mesmo. Eu não sou minha desesperança, embora preveja que nada mais vai dar certo. Eu não sou o que deixei de fazer, porém, fiz muito pouco. Eu não sou minhas desistências, apesar de ter conquistado quase nada. Eu não sou minha covardia, mas nunca fui corajoso. Eu não sou minha solidão, com a qual me abraço. Eu sou o que me resta.

Uso browser do leão Não descrevo minhas fotos Nas enquetes não voto Nem boosto arrecadação

Peço emoji do Minhocão Em pleno feriado Sua distro desacato Sua ovelha eu emborco O CW não coloco Não curto foto do seu gato

Na quinta não peço bis Nunca assisti Bacurau Com tangerina passo mal Se vir uma bolha eu furo Só vivo em cima do muro E sou inimigo do carnaval

Nunca gostei de Vitus, Danis e Guis Tomo banho coletivo Posto clavícula sem motivo Gosto muito mais do Xis

(esse poema é completamente fantasioso, qualquer semelhança com a realidade é coincidência, nenhuma tangerina foi ferida durante o processo)

Torço para que suas coisinhas deem certo Que chegue logo o vale-refeição Que o compromisso seja perto Que seja um e-mail a reunião.

Que o feriado caia em dia útil Que não tenha fila no banco Que aquela conversa seja algo fútil Que não caia molho no seu vestido branco

Que saia novo single da Madonna Que alguém já tenha feito o café Que um amigo ofereça carona Quando achou que ia voltar a pé

Que a festa acabe cedo Que tenha lugar pra sentar Que possa viver sem medo Que se permita sonhar

Que seja leve seu fardo Que seja branda sua lida Que o que te pertence seja dado Que seja feliz sua vida

“Quando o ano de inverno é controlado/muda tudo na vida do sertão.” — Valdir Teles & Zé Fernandes [PARTE 1]

Obs.: A interpretação é do meu ponto de vista e de acordo com minha pesquisa. Algumas coisas são óbvias e eu vou ilustrar mesmo assim, e outras vão passar, mas, se ficar alguma dúvida, pode me perguntar, se quiser.

Antes de começar, precisamos conversar sobre o título/mote e a questão do inverno nordestino: por aqui, de uma maneira geral, dá-se o nome de inverno ao período do ano em que se concentram as chuvas, sendo esse o primeiro semestre: generalizamos assim, de janeiro a junho, às vezes vai além, na maioria das vezes fica aquém. Meses que, para o resto do hemisfério sul, são, na verdade, de verão (ou verão e outono, com o inverno começando só no fim do mês junino, se você for desses). Então, quando se usa a expressão “ano de inverno controlado” significa que, no ano da graça em questão, choveu mais do que a média esperada para os primeiros seis meses no mínimo. Agora as estrofes.

ESTROFE 01

No inverno o sertão tem mais futuro Ninguém quer ir embora nem na peia Toda noite um riacho bota cheia Toda tarde o nascente fica escuro O maxixe amadurece no monturo Melancia faz lama pelo chão Baixa o preço do saco de feijão Milho vira ração de engordar gado Quando o ano de inverno é controlado Muda tudo na vida do sertão

ANÁLISE:

• O maxixe amadurece no monturo: maxixe (Cucumis anguria) é uma hortaliça trepadeira cujo fruto é comestível quando verde (quando maduro tem gosto amargo), mas que, no caso desse verso, está amadurecendo (ou seja, não foi colhido ainda devido à fartura de alimentos proporcionada pelo período chuvoso) no monturo: uma técnica de compostagem que consistem em acumular matéria orgânica, como restos culturais, folhas que caem das árvores, mato cortado, AMONTOADOS num determinado espaço do terreno. O mesmo se reflete no verso seguinte, com as melancias fazendo lama pelo chão, que pode ser tanto figurativamente no sentido que tem muitas frutas, ou literalmente criando lama com a água de frutos que não foram consumindo e acabaram se partindo, encharcando a terra. Ambos os vegetais são da mesma família, a das cucurbitáceas, que precisam de bastante água para crescer e produzir, o que mostra que a escolha do poeta não foi aleatória, faz sentido com o contexto proposto no mote.

Foto colorida de uma planta de maxixe com fruto, parece um pequeno pepino verde-claro com alguns espinhos.

• Milho vira ração de engordar gado: o milho é um dos principais ingredientes energéticos das dietas animais, entretanto, é um importante alimento para os humanos também. Assim, nos períodos de escassez (ou entressafra) os preços “naturalmente” se elevam e o cereal é priorizado para o nosso consumo, enquanto aos animais, além da forragem (capim fornecido fresco ou conservado, ou o que eles conseguirem encontrar na pastagem nativa) que compõe maior parte da dieta, são apresentadas alternativas que não possuam competição com a alimentação humana como sorgo, polpa cítrica, resíduos de cervejaria, etc. Com o retorno da produção, o milho então pode voltar a alimentar a bicharada de forma mais consistente.

Vez ou outra, de surpresa Quase sempre sem querer Acho uma réstia de beleza Um vestígio de você

Numa música bonita Que eu sei que adora Que o “aleatório” não hesita De tocar toda hora

Num sonho bom, se tiver sorte Que invade minha mente Até parece que o meu córtex Não superou a gente

Numa fotografia esquecida De que fui feliz a prova Era apenas uma em nossas vidas Nunca mais haverá nova

Até que por fim Em versos que não mais seus Mas talvez seja bom ter algo assim Tão difícil de dizer adeus

Esse poema foi feito com base nas propostas do perfil @arteDoDia que diariamente posta uma palavra para inspirar a arte da galera na tag #arteDoDia. Eu juntei todas (acho) as que saíram até agora nesse texto

Vou lhe ditar uma lista Do que eu quero do mercado Não vá fazer gambiarra Leve tudo anotado Que eu faça você voltar Se tiver trazido errado

Cuidado mode os carros Ande sempre na calçada Quando chegar na bodega Não se atrapalhe com nada Diga que fui eu quem mandei Deixar a compra anotada

Quero pano pra vestido De xita descolorida Uma carrada e meia De pedra de giz polida E um par de óculos de grau Pra minha cabra margarida

Daquele biscoito raiva Conte pra mim um milhão Uns vinte e cinco fardos De chá de dente-de-leão E procure lá a oitava porca De uma roda de avião

Só coisinha simples Vá ligeiro, fique com o troco Ah, quase ia esquecendo Essa aqui foi por pouco Do galão de combustível Pro isqueiro do cachorro

“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE FINAL]

Essa é a sétima e última parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe 4ª estrofe 5ª estrofe 6ª estrofe

ESTROFE 07:

Nordestino conhece cabeçote Peba, fojo, coivara e roçadeira A medida do cabo da peixeira Cascavel chocalhando no serrote Admira a cantiga do capote Exclamando “tô fraco!” no terreiro João de barro pra ele é engenheiro O carão é profeta e tem poder Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

• Cabeçote é um cupinzeiro, um ninho de cupins, aqueles montinhos de terra que ficam sobre a pastagem.

• O Peba (Euphractus sexcinctus) ou tatupeba é um tatu nativo da América do Sul, muitas vezes consumido pelos sertanejos, sendo o fojo uma espécie de armadilha usada para sua captura, é basicamente tábua sobre um buraco na terra que cede com o peso do anima, daí também vem a expressão “Mais falso do que tábua de fojo”. Ainda no mesmo verso o poeta cita a coivara que é uma técnica agrícola que consiste em limpar um terreno para o plantio, e o material vegetal original é organizado num monte (a coivara propriamente dita), deixado para secar e depois queimado.

Foto colorida de um tatu de perfil numa vala escavada de barro vermelho

• Capote é a mesma Galinha-d'angola (Numida meleagris), as vezes também chamado de guiné.

• Carão (Aramus guarauna) é uma ave da família das garças. A cultura popular acredita que quando o carão canta ele está anunciando que há chuva chegando e/ou que o período chuvoso vai ser de elevada precipitação. Biologicamente, as aves possuem mecanismos de percepção de modificações atmosféricas e o canto pode funcionar como alerta aos outros indivíduos que as condições meteorológicas estão mudando e eles precisam encontrar abrigo. Ainda, os animais geralmente sincronizam seus períodos reprodutivos com épocas do ano de maior fartura alimentar, que é o caso do época das chuvas no nordeste, assim, o canto também pode fazer parte de um ritual de corte dos machos para atrair fêmeas a reprodução.

Foto colorida de uma ave de grande porte, semelhante a uma garça, com penas marrons e bico fino e longo, sobre um corpo de água raso

ESTROFE 08:

Adorar juazeiro e petrolina As carrancas do rio São Francisco Perseguir tejuaçu arisco Pentear o pitó com vaselina Acertar de bodoque na cravina Limpar mato pisando em formigueiro Se você é sulista ou estrangeiro Venha cá comprovar e aprender Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

• As Carrancas são esculturas de madeira geralmente representando uma cabeça animalesca e monstruosa, usadas nas proas das embarcações para espantar maus espíritos das águas, ou ainda como ornamentação.

Foto colorida de uma carranca, uma escultura de madeira de uma cabeça de monstro, na proa de um barco de pequeno porte que está ancorado na beira do rio

• Tejuaçu ou teiú, são lagartos do gênero Tupinambis, animais bastante defensivos.

Foto colorida de um grande lagarto com escamas de padronagem branca e preta em um ambiente externo de pastagem nativa rasteira

• Pitó é o penteado também chamado de coque.

• Cravina ou tico-tico rei (Coryphospingus cucullatus) é um passarinho comum da fauna nordestina.

Foto colorida de uma pequena ave pousada num galho, ela tem plumagem cinza com um topete vermelho no topo da cabeça

FIM Até o próximo poema!!!!

“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 6]

Essa é a sexta parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe 4ª estrofe 5ª estrofe

ESTROFE 06:

Tem que ser viajante das estradas Companheiro da lua irmão do sol Escutar na biqueira o rouxinol Se expressar com aboios e toadas Respeitar o silêncio das chapadas Partilhar o alforje do vaqueiro Pés descalços correr no tabuleiro E com as forças de Deus se proteger Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Rouxinol (Luscinia megarhynchos) é um pássaro muito comum no nordeste, que possui um canto bem distinto que geralmente se escuta a noitinha e que fazem muitas vezes seus ninhos nos telhados ou nas biqueiras das casas

Foto colorida de uma ave de pequeno porte de plumagem marrom clara uniforme, com o bico aberto e pousada num galho fino

O aboio é, originalmente, o conjunto de sons que o vaqueiro usa para conduzir o gado, esses sons podem ser mais simples ou complexo, tendo letras rimadas e improvisadas e até transformadas em toadas e canções.

https://youtu.be/W2Fp65JJwbw?si=rn_2kumI0FRVfFh9

Se fossem 30 dias de cadeia Dispensaria advogado Se fossem 30 dias em alto mar Não seria resgatado Se fossem 30 dias de guerra Terminaria condecorado Se fossem 30 dias correndo Não ficaria cansado

Se fossem 30 dias de escuridão Meus olhos nem abriria Se fossem 30 dias de luz Ao sol agradeceria Se fossem 30 dias no inferno Jamais me arrependeria Se fossem 30 dias de calor Nem a suar chegaria

Mas foram 30 dias de paraíso E eu fui abençoado 30 dias de afagos E eu foi reconfortado 30 dias de declarações Eu sempre emocionado

Foram 30 dias de alvoradas E eu esperando seu bom dia 30 dias de madrugadas A noite já não era sombria 30 dias de amores 30 dias de alegrias 30 dias que precedem Infinitos 30 dias.

Para Ana Letícia