De tão poeta morreu pobre

Olá, navegante! Eu sou um vitu, aqui posto textos duvidosos e poemas de rimas fracas de autoria própria e também verdadeiras obras primas dos grandes mestres.

“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 6]

Essa é a sexta parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe 4ª estrofe 5ª estrofe

ESTROFE 06:

Tem que ser viajante das estradas Companheiro da lua irmão do sol Escutar na biqueira o rouxinol Se expressar com aboios e toadas Respeitar o silêncio das chapadas Partilhar o alforje do vaqueiro Pés descalços correr no tabuleiro E com as forças de Deus se proteger Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Rouxinol (Luscinia megarhynchos) é um pássaro muito comum no nordeste, que possui um canto bem distinto que geralmente se escuta a noitinha e que fazem muitas vezes seus ninhos nos telhados ou nas biqueiras das casas

Foto colorida de uma ave de pequeno porte de plumagem marrom clara uniforme, com o bico aberto e pousada num galho fino

O aboio é, originalmente, o conjunto de sons que o vaqueiro usa para conduzir o gado, esses sons podem ser mais simples ou complexo, tendo letras rimadas e improvisadas e até transformadas em toadas e canções.

https://youtu.be/W2Fp65JJwbw?si=rn_2kumI0FRVfFh9

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“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE FINAL]

Essa é a sétima e última parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe 4ª estrofe 5ª estrofe 6ª estrofe

ESTROFE 07:

Nordestino conhece cabeçote Peba, fojo, coivara e roçadeira A medida do cabo da peixeira Cascavel chocalhando no serrote Admira a cantiga do capote Exclamando “tô fraco!” no terreiro João de barro pra ele é engenheiro O carão é profeta e tem poder Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Cabeçote é um cupinzeiro, um ninho de cupins, aqueles montinhos de terra que ficam sobre a pastagem.

• O Peba (Euphractus sexcinctus) ou tatupeba é um tatu nativo da América do Sul, muitas vezes consumido pelos sertanejos, sendo o fojo uma espécie de armadilha usada para sua captura, é basicamente tábua sobre um buraco na terra que cede com o peso do anima, daí também vem a expressão “Mais falso do que tábua de fojo”. Ainda no mesmo verso o poeta cita a coivara que é uma técnica agrícola que consiste em limpar um terreno para o plantio, e o material vegetal original é organizado num monte (a coivara propriamente dita), deixado para secar e depois queimado.

Foto colorida de um tatu de perfil numa vala escavada de barro vermelho

Capote é a mesma Galinha-d'angola (Numida meleagris), as vezes também chamado de guiné.

Carão (Aramus guarauna) é uma ave da família das garças. A cultura popular acredita que quando o carão canta ele está anunciando que há chuva chegando e/ou que o período chuvoso vai ser de elevada precipitação. Biologicamente, as aves possuem mecanismos de percepção de modificações atmosféricas e o canto pode funcionar como alerta aos outros indivíduos que as condições meteorológicas estão mudando e eles precisam encontrar abrigo. Ainda, os animais geralmente sincronizam seus períodos reprodutivos com épocas do ano de maior fartura alimentar, que é o caso do época das chuvas no nordeste, assim, o canto também pode fazer parte de um ritual de corte dos machos para atrair fêmeas a reprodução.

Foto colorida de uma ave de grande porte, semelhante a uma garça, com penas marrons e bico fino e longo, sobre um corpo de água raso

ESTROFE 08:

Adorar juazeiro e petrolina As carrancas do rio São Francisco Perseguir tejuaçu arisco Pentear o pitó com vaselina Acertar de bodoque na cravina Limpar mato pisando em formigueiro Se você é sulista ou estrangeiro Venha cá comprovar e aprender Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

• As Carrancas são esculturas de madeira geralmente representando uma cabeça animalesca e monstruosa, usadas nas proas das embarcações para espantar maus espíritos das águas, ou ainda como ornamentação.

Foto colorida de uma carranca, uma escultura de madeira de uma cabeça de monstro, na proa de um barco de pequeno porte que está ancorado na beira do rio

Tejuaçu ou teiú, são lagartos do gênero Tupinambis, animais bastante defensivos.

Foto colorida de um grande lagarto com escamas de padronagem branca e preta em um ambiente externo de pastagem nativa rasteira

Pitó é o penteado também chamado de coque.

Cravina ou tico-tico rei (Coryphospingus cucullatus) é um passarinho comum da fauna nordestina.

Foto colorida de uma pequena ave pousada num galho, ela tem plumagem cinza com um topete vermelho no topo da cabeça

FIM Até o próximo poema!!!!

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Se fossem 30 dias de cadeia Dispensaria advogado Se fossem 30 dias em alto mar Não seria resgatado Se fossem 30 dias de guerra Terminaria condecorado Se fossem 30 dias correndo Não ficaria cansado

Se fossem 30 dias de escuridão Meus olhos nem abriria Se fossem 30 dias de luz Ao sol agradeceria Se fossem 30 dias no inferno Jamais me arrependeria Se fossem 30 dias de calor Nem a suar chegaria

Mas foram 30 dias de paraíso E eu fui abençoado 30 dias de afagos E eu foi reconfortado 30 dias de declarações Eu sempre emocionado

Foram 30 dias de alvoradas E eu esperando seu bom dia 30 dias de madrugadas A noite já não era sombria 30 dias de amores 30 dias de alegrias 30 dias que precedem Infinitos 30 dias.

Para Ana Letícia

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“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 5]

Essa é a quinta parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe 4ª estrofe

Disclaimer: eu pulei uma estrofe anterior, vou trazê-la agora antes da 5ª, nomeando-a de 05a

ESTROFE 05a:

Tem que ser nordestino bem porreta Pra nos dedos fazer um capitão De farofa, de arroz e de feijão E comer com pimenta-malagueta Com a foice cortar jurema preta Amansar animal passarinheiro Tomar banho com água de barreiro Esgotar a cacimba de beber Tem que ser nordestino pra saber Dar valor do nordeste brasileiro.

ANÁLISE:

Capitão, como o próprio poeta explica no verso seguinte, é um bolinho feito amassando-se o feijão e a farinha com as mãos no momento da alimentação. Também pode ser chamado de raposo/raposa ou macaquinho.

Jurema preta (Mimosa tenuiflora) é uma espécie arbórea da caatinga, de galhos finos, escuros e espinhosos.

Foto colorida da árvore comentada, apesar de alta tem o tronco e galhos delgados e folhas ralas e pequenas

Animal passarinheiro é aquele que se assusta fácil com objetos ou movimentos que ocorram ao seu redor, muito usado para descrever cavalos que não passaram por processo de doma.

Cacimba e barreiro são duas formas de captação e armazenamento de água, sendo a cacimba uma espécie de poço escavado em locais úmidos para obtenção de água subterrânea e o barreiro é uma trincheira feita para captar água da chuva que escoa pela superfície do solo.

Foto colorida de um homem coletando água de um barreiro

ESTROFE 05:

Tem que ser nordestino cabra macho Pra na cerca fazer um passador Com as ervas inventar um lambedor Preparar nó de porco e barbicacho Perseguir passarinho com um facho Botar uma careta em marrueiro Com a canga prender pai de chiqueiro Pra na cerca dos outros não caber Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Passador ou passadiço é uma estrutura semelhante ao uma pequena escada, geralmente feita de madeira rústica e montada sobre uma cerca de arame farpado, para permitir que uma pessoa passe de um terreno para o outro sem precisar se deslocar até a entrada desse espaço delimitado

Foto colorida da estrutura comentada

Lambedor é um xarope natural e caseiro feito com mel, plantas medicinais, especiarias e etc, para o tratamento de tosse e outros sintomas de gripe, principalmente.

Nó de porco (também chamado de volta do fiel) e barbicacho são tipos de nós usados para amarrar cargas e animais. Barbicacho também pode se referir ao laço que passa por baixo do queixo para prender o chapéu a cabeça.

Perseguir passarinho com um facho é uma técnica de caça de subsistência ou captura de animais, onde se utiliza uma lanterna (ou outra fonte de luz) para ofuscar a visão de pássaros a noite e facilitar a apreensão.

Careta é um anteparo, uma máscara, confeccionada geralmente em couro, utilizada para cobrir os olhos de animais defensivos e/ou reativos e facilitar sua condução, protegendo as pessoas e o próprio animal. Marrueiro inclusive refere-se a um touro bravo, não domado.

Foto colorida de um bovino caramelo usando uma careta de couro, sendo conduzido por uma corda por um vaqueiro a cavalo com um cachorro ao lado,, por uma estrada de terra

Canga ou cangalha é uma estrutura feita com madeira de galhos de árvores, formando como se fosse um triangulo ao redor do pescoço ods animais, para evitar que eles passem por entre os arames dos cercados. O pai de chiqueiro é o nome dado ao macho caprino adulto, o bode reprodutor da criação, que muitas vezes tenta passar da cerca em busca de fêmeas no cio, por exemplo.

Foto colorida de um caprino branco usando canga no pescoço

Até a próxima estrofe!

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Maldita seja a distância, que me separa de seus abraços Porém, benditos sejam os caminhos que me levam a você Abençoados sejam cada um de meus passos

Cruéis são as fotografias, que não capturam sua divindade Entretanto, gloriosas são as linhas de seu sorriso A sublime causa da minha felicidade

Abominável o homem que inventou os mensageiros Todavia, venturosas são tuas palavras Magnificas são as letras nas quais me deleito

Perversa é a saudade que caminha ao meu lado Mas, felizardo sou eu E minha certeza de ser amado.

Para Ana Letícia

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“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 4]

Essa é a quarta parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe

ESTROFE 04

Nordestino é de raça curiosa Compreende o amiudar do galo Cedo aprende a fazer cuscuz de ralo Colher fruta de palma saborosa Separar manga espada, manga rosa Curar dores com sebo de carneiro Muito crente chamar de curandeiro E roubar santo na seca pra chover Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Amiúde pode significar “Que ocorre de maneira repetida; frequente”, como Zé Ramalho também usa em “Chão de Giz” pra se referir aos jornais de folha, então, o amiudar do galo pode-se compreender como o canto rotineiro de toda manhã.

Cuscuz de ralo é aquele que é feito do milho ralado na hora.

Foto colorida de um homem sentado ao ar livre em um banco rústico de madeira, ralando espigas de milho num ralador metálico cujo produto cai em uma bacia de metal a sua frente. Ele usa boné, camisa de manga longa laranja, calça jeans escura e botas

• A mais famosa fruta de palma é conhecida como figo-da-índia (Opuntia ficus-indica)

Foto colorida da planta mencionada, uma cactácea (palma) com vários frutos amarelados no topo dos cladódios

• O sebo ou gordura dos ovinos era utilizada para tratamento de machucados e dores. Se priorizava a obtenção da gordura visceral, sobretudo a da glândula adrenal, responsável pela produção do cortisol, que por sua vez tem função anti-inflamatória, regulando o sistema imunológico, então talvez daí venha o princípio ativo. Os lipídios por si só podem interagir com as membranas celulares dos microorganismos impedindo sua proliferação, além de proteger ferimentos do contato com o ar e sujidades e hidratar a pele, por isso usada até hoje como medicamento e cosmético.

• Uma tradição antiga de roubar uma imagem de São José, o “padroeiro da chuva”, até o fim do período chuvoso, para que o santo não abandonasse os sertanejos e a colheita fosse produtiva, depois sendo devolvido ao seu local original.

Foto de tom avermelhado de várias pessoas numa procissão carregando velas e uma imagem de São José

Até a próxima estrofe!

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Antes de ler: este texto é baseado na poesia “slam” OCD de Neil Hilborn onde ele versa sobre como é se apaixonar tendo TOC, adaptando para a minha visão que tenho transtorno de ansiedade.

Desde a primeira vez que eu soube da sua existência, as minhas várias previsões de futuros fodidos cessaram imediatamente. Todos os arrependimentos por tudo que fiz ou deixei de fazer, assim como os desejos de finitude simplesmente sumiram. Quando você tem ansiedade generalizada vive sempre rodeado de demônios. Mesmo antes de dormir, deitado confortavelmente na minha própria cama, na segurança do meu próprio quarto, circundado de várias paredes com vários centímetros de alvenaria, eu estou sempre pensando:

E amanhã? E ontem? E aquele “sim” que ignorei? E aquele “não” que minto para mim mesmo dizendo que superei?

Mas quando eu a vi, tudo que vinha a minha cabeça eram aqueles olhos. Nem passado, nem futuro, nem oportunidades perdidas, nem erros cometidos: eram apenas eu, o aqui, o agora e aqueles olhos, envoltos numa despretensão contraditória para alguém tão próximo da perfeição. Eu sabia que devia falar com ela. E eu falei como sabia falar, como conseguia falar. Não eram coisas bonitas, mas por algum motivo ela achou lindo. Eu achava lindo tudo nela. E naquele momento eu soube que faria qualquer coisa por aquela mulher. Por ela eu parei de me preocupar que não sou suficiente. Por ela eu comecei a gostar mais de mim. Por ela eu me sinto confortável dentro da minha pele. Por ela eu durmo feliz em acordar no dia seguinte. Por ela eu aprendi a conversar e perdi o medo de notificações no meu telefone. Por ela eu pauso a música que preenche o vazio da minha cabeça, pra ouvir a voz que só ela tem que preenche não só meus pensamentos, mas também o meu sentir. Por ela eu tive cuidado comigo pela primeira vez. Por ela eu voltei a sair de casa e enfrentar de peito aberto o sol draconiano que paira sobre nossas cabeças. Por ela eu parei de odiar meus sonhos acordados. Por ela eu passei a sonhar acordado ainda mais. Por ela eu acordo dos meus sonhos mais deliciosos. Porque com ela, pela primeira vez, a realidade é melhor que o sonhar.

Para Ana Letícia

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“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 3]

Essa é a terceira parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe

ESTROFE 03

Sentir gosto na fava bem madura Vestir bem o gibão e a perneira Crer no galho nas mãos da benzedeira Ser o doce que tem na rapadura Passear procurando tanajura Nas primeiras chuvadas de janeiro Brocoió, mocorongo, beradeiro Se isso for nordestino eu quero ser Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Fava é uma leguminosa, refere-se principalmente a espécie Vicia faba, semelhante a um feijão só que maior, que pode ser preparada de como uma feijoada.

Gibão e perneira seriam como a camisa e a calça, feitas de couro, usadas pelos vaqueiros para se proteger dos galhos espinhosos das plantas da caatinga.

Foto colorida de um homem de costas vestindo uma roupa de couro marrom com detalhes brancos, consistindo em um chapéu em formato de cuia com uma aba curta, uma espécie de jaquetão sobre os ombros que é o gibão, uma proteção de couro que lembra uma calça sem o fundo que ele usa por cima das pernas de uma calça jeans que é a perneira. Ao seu lado de frente para a câmera está um cavalo acinzentado que usa uma proteção de couro escuro no peito. Ao fundo aparece uma mata desfocada.

Benzedeiras ou rezadeiras são geralmente mulheres idosas que possuem o dom de curar as pessoas, principalmente de mau-olhado e coisas do gênero, com orações realizadas enquanto “benzem” o paciente com ramos de folhas de plantas específicas. Na música REZA de Luana Flores e Jéssica Caitano a introdução é uma reza de olhado, e tanto a letra e o clipe faz outras referências a tradição das rezadeiras nordestinas.

Tanajura ou saúva são nomes dados as formigas-cortadeiras, sobretudo as maiores e os machos alados, que eram (e ainda são) utilizadas como alimento, mediante sua captura nos meses de verão, temporada de chuvas que ocorre no primeiro semestre do ano a qual chamamos de “inverno”, quando esses insetos costumam a se reproduzir, já que nesse o solo está mais macio e isso facilita a instalação dos novos ninhos.

Foto colorida mostrando diferentes castas e estágios reprodutivos de formigas, dispostas lado a lado sobre uma superfície clara, com cada indivíduo identificado por rótulos em inglês, que dizem o seguinte: À esquerda, observa-se uma operária média, de tamanho intermediário, corpo marrom-avermelhado, cabeça proporcionalmente moderada e pernas relativamente longas. Próxima a ela está uma operária menor, visivelmente menor do que a anterior. Mais acima aparece uma operária maior, robusta, com cabeça larga e mandíbulas bem desenvolvidas. No centro da imagem encontra-se a rainha fecundada (sem asas) e sobre ela uma rainha virgem (ainda alada, com asas membranosas e translucidas), ambas são maiores que as operárias, com abdômen volumoso e tórax desenvolvido, indicando sua função reprodutiva. À direita do conjunto central vê-se uma operária mínima, extremamente pequena. Por fim, à extrema-direita, aparece o macho alado, maior que as operárias e menor do que a rainha, com asas bem desenvolvidas, cuja função principal é a reprodução durante o voo nupcial.

Brocoió, mocorongo, beradeiro são sinônimos de 'caipira' ou 'pessoa simples' usados pejorativamente para se referir aos sertanejos, do qual o poeta se apropria para reverter o sentido em favor dos camponeses.

Até a próxima estrofe!

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“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 2]

Essa é a segunda parte da análise, caso não tenha lido a primeira pode encontrá-la AQUI

ESTROFE 02

Tem no mínimo que ser “nordestizado” Para saber o que é um caritó Remedar assobio de mocó Cortar lenha de foice e de machado Tratar bem de bezerro caruado Misturar jitirana e marmeleiro Fazer chá com a flor de sabugueiro Para a febre não reaparecer Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Caritó tem vários significados, nesse caso eu acho que o poeta está se referindo a prateleiras rústicas que eram construídas na própria parede da casa, como nichos pra guardar objetos construídos de “alvenaria”.

Foto colorida de uma parede de uma casa de barro com vários objetos decorativos em prateleiras distribuidas por toda sua extensão, com destaque para duas prateleira como nichos de um armário construidas na própria parede

• O mocó (Kerodon rupestris) é um pequeno roedor nativo da caatinga, que vocaliza com sons curtos e agudos que lembra um piado ou assovio. Esse chamado pode ser imitado (remedado) para atrair esses ANIMAIS.

Bezerro caruado é um animal doente, refere-se geralmente a inflamação nos membros e juntas (mal caruara, mal da junta inchada ou poliartrite infecciosa), resultante da não ingestão do colostro nos primeiros dias após nascido, enfraquecendo seu sistema imunológico ou ainda, a falta da cura do umbigo, que é uma porta de entrada para microorganismos, assim deixando o animal suscetível a essas e outras doenças.

• A jitirana (Ipomoea cairica), o marmeleiro-do-mato (Croton sonderianus) e o sabugueiro (Sambucus nigra) são plantas medicinais encontradas na caatinga.

Foto coloridade uma trepadeira com pequenas flores roxas Jitirana

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“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 1]

Esse repente em decassílabo sempre me deixava ENCAFIFADO, porque sou nordestino e muita coisa cantada no poema eu não sabia. Aí, com medo de perder minha cidadania, fui pesquisar e vou trazer esse estudo dirigido para cá aos poucos, ilustrando as estrofes e os termos (que acho que são) mais complexos/regionais.

Obs.1 – Algumas coisas são obvias e eu vou ilustrar mesmo assim e outras vão passar, mas se ficar alguma dúvida pode me perguntar, se quiser. Obs. 2 – Não precisa ser nordestino pra valorizar o Nordeste, é só liberdade poética para compor o mote, como haverá outras liberdades ao longo do repente.

ESTROFE 01

Tem de ser de origem nordestina Pra beber água fria de cabaça Calcular a distância de uma braça Entrançar uma cerca de faxina Atirar de espingarda lazarina Palitar com espinho de facheiro Com a faca rapar o juazeiro Fazer pasta pra o dente embranquecer Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Cabaça é o fruto de algumas espécies da família das cucurbitáceas (mesma das abóboras, pepinos, melões, melancias, buchas vegetais...), eu acredito que principalmente da Lagenaria siceraria (conhecida por Porongo ou cabaceira) que é a mesma que se faz a cuia de chimarrão. Depois de desidratado e limpo vira tipo um copo Stanley do sertão, a proteção do sol deixa a água sensivelmente mais fria, talvez.

Braça é uma antiga medida do sistema imperial (eca) que equivale a 2,20m. Até onde sei, é uma métrica que se popularizou no meio rural ser utilizada na metragem da terra cedida aos trabalhadores imigrantes.

• A cerca de faxina é construída de varas finas de madeira seca (inclusive é daí que vem o nome, porque faxina também denomina esses gravetos usados geralmente como lenha) entrelaçadas vertical ou horizontalmente, podendo ser construída sem arames, muito usada para cercar terrenos ou conter animais.

Foto colorida de um terreno de chão de terra batida delimitado por uma cerca de faxina construída com varas de madeira lado a lado. Além da cerca vê-se a paisagem natural, com árvores, montanhas e nuvens

• A espingarda lazarina é uma arma de baixo calibre originalmente fabricada por Lazarino Cominazzo, utilizada antigamente para a caça de subsistência de animais de pequeno porte.

Facheiro ou mandacaru-de-facho (Pilosocereus pachycladus) é uma cactácea endêmica do nordeste, utilizada às vezes para alimentação animal (após retirados os espinhos, que são grandes e numerosos). Ouvi dizer que o nome facheiro é porque os espinhos secos são “inflamáveis”, inclusive os braços secos do cacto eram usados como tochas, tochas essas chamadas de FACHOS, o que também teria originado a expressão Abaixe o facho usada para mandar alguém sossegar ou chamar menos atenção, tal qual quando se “remove a tocha do campo de visão do imimigo”.

Foto colorida de um facheiro, planta cactácea espinhosa ramificada em vários "braços", pegando fogo num ambiente escuro. Não repita isso em casa.

Ziziphus joazeiro é uma árvore de grande porte que produz frutinhos comestíveis (os bodes adoram) e que tem uma casca rica em saponinas, que fazem espuma e tem propriedades de detergentes, por isso a raspa da casca de juá é usada como pasta de dente e em outros produtos cosméticos e medicinais até hoje.

Esse foi o começo do que espero que seja uma série, até a próxima estrofe!

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