Bebendo na fonte do Pajeú das Flores II:
“Quando o ano de inverno é controlado/muda tudo na vida do sertão.” — Valdir Teles & Zé Fernandes [PARTE 1]
Obs. 1: A interpretação é do meu ponto de vista e de acordo com minha pesquisa. Algumas coisas são óbvias e eu vou ilustrar mesmo assim, e outras vão passar, mas, se ficar alguma dúvida, pode me perguntar, se quiser.
Antes de começar, precisamos conversar sobre o título/mote e a questão do inverno nordestino: por aqui, de uma maneira geral, dá-se o nome de inverno ao período do ano em que se concentram as chuvas, sendo esse o primeiro semestre: generalizamos assim, de janeiro a junho, às vezes vai além, na maioria das vezes fica aquém. Meses que, para o resto do hemisfério sul, são, na verdade, de verão (ou verão e outono, com o inverno começando só no fim do mês junino, se você for desses). Então, quando se usa a expressão “ano de inverno controlado” significa que, no ano da graça em questão, choveu mais do que a média esperada para os primeiros seis meses no mínimo. Agora as estrofes.
ESTROFE 01
No inverno o sertão tem mais futuro Ninguém quer ir embora nem na peia Toda noite um riacho bota cheia Toda tarde o nascente fica escuro O maxixe amadurece no monturo Melancia faz lama pelo chão Baixa o preço do saco de feijão Milho vira ração de engordar gado Quando o ano de inverno é controlado Muda tudo na vida do sertão
ANÁLISE:
- O maxixe amadurece no monturo: maxixe (Cucumis anguria) é uma hortaliça trepadeira cujo fruto é comestível quando verde (quando maduro tem gosto amargo), mas que, no caso desse verso, está amadurecendo (ou seja, não foi colhido ainda devido à fartura de alimentos proporcionada pelo período chuvoso) no monturo: uma técnica de compostagem que consistem em acumular matéria organica, como restos culturais, folhas que caem das árvores, mato cortado, AMONTOADOS num determinado espaço do terreno. O mesmo se reflete no verso seguinte, com as melancias fazendo lama pelo chão, que pode ser tanto figurativamente no sentido que tem muitas frutas, ou literalmente criando lama com a água de frutos que não foram consumindo e acabaram se partindo, encharcando a terra. Ambos os vegetais são da mesma família, a das cucurbitáceas, que precisam de bastante água para crescer e produzir, o que mostra que a escolha do poeta não foi aleatória, faz sentido com o contexto proposto no mote.
- Milho vira ração de engordar gado: o milho é um dos principais ingredientes energéticos das dietas animais, entretanto, é um importante alimento para os humanos também. Assim, nos períodos de escassez (ou entressafra) os preços “naturalmente” se elevam e o cereal é priorizado para o nosso consumo, enquanto aos animais, além da forragem (capim fornecido fresco ou conservado, ou o que eles conseguirem encontrar na pastagem nativa) que compõe maior parte da dieta, são apresentadas alternativas que não possuam competição com a alimentação humana como sorgo, polpa cítrica, resíduos de cervejaria, etc. Com o retorno da produção, o milho então pode voltar a alimentar a bicharada de forma mais consistente.












Jitirana