ATENÇÃO: Esse texto refere-se a poesia do post anterior, se você ainda não a leu, sugiro fortemente que LEIA AQUI. Essa análise é minha visão sobre o poema, mas não é a versão definitiva da interpretação, apenas mais uma das infinitas possíveis.
Esse poema começou a surgir na minha cabeça logo que vi a divulgação do nome dessa plataforma e a sua proposta. As frases começaram a surgir no meu juízo enquanto eu inconscientemente perambulava pela casa. Quando me dei conta que estava no quintal de pés descalços, voltei ao computador e solicitei um convite ao amigo Santiago, vulgo @muito_pelo@contra.rio.br e o resto é história.
Ao contrário do que a prof. de literatura me ensinou na escola, comecei a escrever minha “redação” pelo título que, confesso, a princípio era apenas um trocadilho com lacraia e o livro Simulacros e Simulação (Simulacres et Simulation de Jean Baudrillard).
Entretanto, isso é tudo que conheço desse tratado. Isso e que serviu de inspiração para The Matrix e aí vem a conexão póstuma (acho que tem uma palavra melhor para isso): se o filme de 99 aborda o tema da humanidade sobrevivendo ao domínio absoluto das máquinas, numa internet de 26 onde as inteligências artificiais se alastram por todos os bits que seus tentáculos alcançam, não seriam os escritores orgânicos da Lacra.ia a resistência? No meu subconsciente, aparentemente, sim. Vejamos:
O poema segue o formato de uma sextilha, ou seja, cada estrofe é composta por seis versos que seguem esse esquema de rimas:
A
B
C
B
D
B
Onde, as linhas B rimam entre si e as demais não rimam com nenhuma outra. No mundo do repente, a sextilha é o estilo que geralmente abre a cantoria, ele é mais simples, não tendo mote, apenas um assunto e serve como aquecimento das mentes, dedos e cordas vocais dos poetas violeiros, achei que seria uma boa forma de começar também meu humilde bloguinho.
1ª ESTROFE
Sobrevivo no escuro
Em meio a escombros
Fugindo dos homens
E seus “malassombros”
Desejando seu fim
E aguardando seu tombo
As lacraias são animais noturnos, que passam o dia escondidas em meio a folhagem, buracos ou objetos e brechas na casa das pessoas. Nesse poema, nós, inteligências naturais usuárias de redes sociais descentralizadas, somos a lacraia, vivendo nas sombras e escondida das big techs capitalistas que dominaram nosso habitat natural enquanto torcemos pelo seu fim e rezamos por nossa sobrevivência.
Essas grandes empresas de tecnologia, muitas vezes controladas por neofascistas, são comparadas ao homem, tanto no sentido do ser humano e seus pesticidas polidamente rebatizados de agroquímicos, quanto no sentido de “the man” enquanto a “autoridade” opressora do capital com seus bilhões e com sua tirania.
2ª ESTROFE
Não é por maldade
Meu veneno na presa
Contra sua crueldade
É minha defesa
Você se afasta
E eu saio ilesa
Aqui o texto começa a ficar mais simples, agora que já sabemos as analogias estabelecidas: lacraias são animais peçonhentos, possuem veneno e uma forma de injetá-lo, tanto para caçar quanto para se defender. Para nós esse espaço seguro, fora dos jardins murados, seria o veneno que vai afastar nossos predadores, fazê-los sofrer e quem sabe matá-los.
3ª ESTROFE
Visto armadura
De placas de Bronze
Pra aguentar a “pisada”
Do passo do homem
Sua dor é minha sina
E Lacra.ia é me nome
Os artrópodes possuem um exoesqueleto queratinoso que protegem seu corpo de danos mecânicos externos e a coloração de tons marrons das lacraias as auxilia na camuflagem em meio ao ambiente terroso das superfícies naturais, mas uma vez trazendo a temática da resistência dessa plataforma, onde fui tão bem acolhido e abraçado com vários pares de bracinhos. Obrigado.