from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão
Sonhos
Eu tentei te encontrar Em meus sonhos Mas você não estava lá.
Lista dos últimos textos publicados na lacra.ia:
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Sonhos
Eu tentei te encontrar Em meus sonhos Mas você não estava lá.
from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão
Estação lunar
Alo estação Alguém na escuta? Temo que não A mensagem é curta:
“Estou suspensa no espaço Sem estação pra ancorar Minha nave plana muito alto Sem um mapa estelar Eu me perco e eu me acho Mas sem ter pra onde voltar Minha missão é um passo em falso Quem virá me resgatar?”
Estação lunar Solicito resgate Se alguém me escutar Segue minha mensagem:
“O infinito me olhou e o encarei Vaguei entre estrelas e apaguei Em meio a imensidão desvaneci Quem me escutar me encontre aqui”.
from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão
Incrível
Você é fácil o melhor que já tive na vida. E isso me tira um tanto do rumo. Fico com medo de estar sendo demais em algumas coisas e de menos em outras. Talvez esteja sendo. E daí vem um pavor de um dia estragar tudo.
Porque a verdade é que eu mal posso acreditar no presente. Eu olho para minha vida, e fora uma ou outra coisa fora do lugar, eu mal posso acreditar na sorte que eu dei. Eu olho ao redor e simplesmente não acredito. Lembro da bagunça e loucura de onde eu vim e não sei dizer como as coisas tomaram jeito. É como surgir limpa e calma saindo de um mar revolto de lama. É incrível.
De alguma forma enquanto deitava de lado com um notebook vendo filmes estranhos sozinha, cumprindo minha planilha de scifi, ali há uns 10 anos atrás, eu talvez tenha formado esse presente de algum jeito torto e estranho como são as coisas de que são feitas a vida. E ainda assim me sinto como quem se perdeu em um rua estranha e achou uma nota de 100.
O que me preocupa mesmo é que eu estou quebrada faz tempo, e já entendi que assim vai ser, como um vaso que cai, estilhaça em mil pedaços e mesmo colado terá essas marcas, e nunca mais será o mesmo. Queria estar inteira para o melhor que já tive, mas sou o que posso ser, dou o que tenho e sigo como posso.
from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão
Sem peso
Queria esquecer que estou suspensa no espaço e ao mesmo tempo aproveitar que estou suspensa no espaço. Não tem sentido, nem tem jeito. É uma questão de perspectiva e todas elas estão distorcidas, contorcidas, deformadas.
Vaguear no espaço sabendo que depois vou continuar a deriva acaba não tendo o mesmo sabor. Não que eu não aprecie o infinito, o vazio, a ausência, a leveza. Não que eu não saiba mais simplesmente me deixar flutuar sem rumo, rolar, me perder e me achar. Mas e depois?
Alguém virá ao meu resgate? Ou terei de achar um jeito de partir deste não-lugar eu mesma? A vista é bonita, mas ela aponta para lugar nenhum.
from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão
Dissolver
Eu tento dissolver Eu penso em dispersar Eu posso desaparecer Mas não vou compensar Eu não sustento a voz Eu não me aguento em pé Eu vou pra casa só Perder a minha Fé em mim
Eu tento levantar Mas só penso em dormir Posso recomeçar Tentar não desistir Eu lembro de quem fui E de quem não quero ser O tempo me dilui Me faz enlouquecer E no fim Só sobrou
A luz do sol
Sobre mim
Sobre nós
E no fim
Foi assim.
from Plantinhas do meu jardim digital
Andei lendo debates sobre a identidade latino-americana de brasileiros. Eu, como moradora da Zona Oeste, entendo bem esse movimento tô dentro – tô fora: quando se fala em “carioca”, fala-se de quem? Depende de quem fala, para, quando e de onde fala. ___
Somos todos irmãos mas não porque tenhamos a mesma mãe e o mesmo pai: temos é o mesmo parceiro que nos trai. Somos todos irmãos não porque dividamos o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada sobre nossa cabeça.
Somos todos irmãos não porque tenhamos o mesmo braço, o mesmo sobrenome: temos um mesmo trajeto de sanha e fome. Somos todos irmãos não porque seja o mesmo sangue que no corpo levamos: o que é o mesmo é o modo como o derramamos.
Ferreira Gullar. In: Barulhos (1989)
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https://song.link/y/W9LfkZGHtEY Vídeo. Apresentação ao vivo. 2:55
Não foi só música. Canal @valerumlivro. Tatiany Leite mostra livros que dialogam com a apresentação de Bad Bunny no Super Cumbuca.
série América Latina. Canal @Normose_
América Latina é invenção do Silvio Santos
#música
from De tão poeta morreu pobre
“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 3]
Essa é a terceira parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:
ESTROFE 03
Sentir gosto na fava bem madura Vestir bem o gibão e a perneira Crer no galho nas mãos da benzedeira Ser o doce que tem na rapadura Passear procurando tanajura Nas primeiras chuvadas de janeiro Brocoió, mocorongo, beradeiro Se isso for nordestino eu quero ser Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro
ANÁLISE:
• Fava é uma leguminosa, refere-se principalmente a espécie Vicia faba, semelhante a um feijão só que maior, que pode ser preparada de como uma feijoada.
• Gibão e perneira seriam como a camisa e a calça, feitas de couro, usadas pelos vaqueiros para se proteger dos galhos espinhosos das plantas da caatinga.

• Benzedeiras ou rezadeiras são geralmente mulheres idosas que possuem o dom de curar as pessoas, principalmente de mau-olhado e coisas do gênero, com orações realizadas enquanto “benzem” o paciente com ramos de folhas de plantas específicas. Na música REZA de Luana Flores e Jéssica Caitano a introdução é uma reza de olhado, e tanto a letra e o clipe faz outras referências a tradição das rezadeiras nordestinas.
• Tanajura ou saúva são nomes dados as formigas-cortadeiras, sobretudo as maiores e os machos alados, que eram (e ainda são) utilizadas como alimento, mediante sua captura nos meses de verão, temporada de chuvas que ocorre no primeiro semestre do ano a qual chamamos de “inverno”, quando esses insetos costumam a se reproduzir, já que nesse o solo está mais macio e isso facilita a instalação dos novos ninhos.

• Brocoió, mocorongo, beradeiro são sinônimos de 'caipira' ou 'pessoa simples' usados pejorativamente para se referir aos sertanejos, do qual o poeta se apropria para reverter o sentido em favor dos camponeses.
Até a próxima estrofe!
from Plantinhas do meu jardim digital
Leia mais...from De tão poeta morreu pobre
“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 2]
Essa é a segunda parte da análise, caso não tenha lido a primeira pode encontrá-la AQUI
ESTROFE 02
Tem no mínimo que ser “nordestizado” Para saber o que é um caritó Remedar assobio de mocó Cortar lenha de foice e de machado Tratar bem de bezerro caruado Misturar jitirana e marmeleiro Fazer chá com a flor de sabugueiro Para a febre não reaparecer Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro
ANÁLISE:
• Caritó tem vários significados, nesse caso eu acho que o poeta está se referindo a prateleiras rústicas que eram construídas na própria parede da casa, como nichos pra guardar objetos construídos de “alvenaria”.

• O mocó (Kerodon rupestris) é um pequeno roedor nativo da caatinga, que vocaliza com sons curtos e agudos que lembra um piado ou assovio. Esse chamado pode ser imitado (remedado) para atrair esses ANIMAIS.
• Bezerro caruado é um animal doente, refere-se geralmente a inflamação nos membros e juntas (mal caruara, mal da junta inchada ou poliartrite infecciosa), resultante da não ingestão do colostro nos primeiros dias após nascido, enfraquecendo seu sistema imunológico ou ainda, a falta da cura do umbigo, que é uma porta de entrada para microorganismos, assim deixando o animal suscetível a essas e outras doenças.
• A jitirana (Ipomoea cairica), o marmeleiro-do-mato (Croton sonderianus) e o sabugueiro (Sambucus nigra) são plantas medicinais encontradas na caatinga.
Jitirana
from fidarossa
Ainda quero construir um brinquedo desses aqui em casa: https://dri.es/my-solar-powered-and-self-hosted-website
A propósito, já tem mais de 10 anos que tenho dois computadorzinhos do tipo #sbc (computador de placa única), que vivem na eterna espera do dia que vou poder me dedicar a isso.
Depois que conheci a preca.rio.br, fiquei instigado a deixar de esperar, fazer do jeito que der e ver no que isso vai dá.
#autohospedagem #solar #caseira #selfhost #selfhosting
from Centelhas Literárias
Mesmo que tenha crescido numa casa com muitos livros, clássicos em sua maioria, acho que sempre tive a impressão de que essas obras “não eram pra mim”. Fosse pelo simples fato de que Percy Jackson soava muito mais legal ou porque parecia lógico que nenhum deles falaria nada que me interessasse. Assim, cheguei à vida adulta com centenas de livros lidos nas costas, mas os poucos clássicos que lera, integralmente, restringiam-se à minha primeira infância em que muito mais rabiscava os livros do que lia.
Não consigo lembrar bem dessas obras que me acompanharam enquanto era alfabetizada, o micro-cânone disponível na estante dos meus pais era recheado de tremas, cousas e pharmacias. Adulta, parecia que me faltava muito para ousar tocar empeças tão sagradas da literatura. Precisava ler mais, muito mais, sobre incontáveis coisas, antes de sequer pensar em compreender a profundidade de O Cortiço ou um Dom Casmurro.
Em algum ponto da vida, clássicos começaram a significar duas coisas para mim: velho e complicado. Que criança leria qualquer coisa apresentada dessa forma? Eu certamente não, o que é irônico, já que o primeiro livro que me lembro de pegar na vida foi Dom Quixote de la Mancha. Não que eu lembre muito além do fato que gostava muito do livro.
De dois ou três anos para cá, tive a feliz surpresa de descobrir que clássicos são, por definição, para todos. Podem até não ser sua leitura favorita, podem não te tocar como tocaram outros, você tem até o direito de pensar que foi um desperdício do seu tempo e do seu dinheiro aquela obra específica. Mas, como compêndio, é difícil dizer que os clássicos são um único adjetivo de qualidade. Nem só “bons”, nem só “ruins”. Por isso decidi escrever esse texto.
Nasci pobre, numa casa que calhava de ter mais livros do que comida com frequência, nasci como minoria de gênero e nasci brasileira. São todas características que me levaram a crer por muito tempo que nenhum clássico poderia ser para mim. Hoje me identifico também como queer em toda grandeza e nuance dessa palavra. Excêntrica, disruptiva e subversiva sempre que possível. Por muitos anos, ouvi que essas obras não falavam de gente pobre, de gente queer, de gente latinoamericana como eu conhecia. Não os sorrisos plásticos da Paulista, o sol idolatrado de Ipanema, mas as bocas cheias de dentes e fome desse país, as mãos sujas de terra e as costas sempre grudando de suor na camisa em um ônibus apertado.
Creio que muitos de vocês já tenham ouvido isso também — e até acreditado — e escrevo esse texto com a simples intenção de avisar: isso é mentira.
O cânone é, sim, majoritariamente homem, branco e burguês pelo Ocidente inteiro (não ouso opinar no cânone do Oriente, se é que utilizam a mesma terminologia, já que meu contato se limita a dois formalistas russos). Isso se dá, simplesmente, porque nossa sociedade é misógina, racista e capitalista. Nossa literatura não pode se isolar do contexto no qual está inserida, mas ainda pode subverter, questionar e até ousar sonhar com alternativas a esse contexto.
Para além das vozes autorais diversas, tento eu mesma recuperar cada mulher esquecida dentro do gótico com tudo que posso, temos uma infinidade de mundos possíveis. Recentemente li Esfinge, um clássico nacional escrito por Coelho Netto, e esse livro publicado em 1907 elabora sutilmente questões de sexualidade e gênero no calor do Rio de Janeiro. Tudo com um toque de mistério. Na linha da questão da sexualidade temos O Retrato de Dorian Gray (1890), Moby Dick (1851), Carmilla (1872) e até Drácula (1897) como clássicos que retratam a questão (uns como foco, outros por puro preconceito de seus autores). Na crítica à aristocracia há O Vampiro (1819) de Polidori, na crítica à monstruosidade dos homens Frankenstein (1818).
Se Ann Radcliffe escrevia mulheres em padrões conformistas com as noções de gênero de sua época, como vemos em Os Mistérios de Udolpho (1794). Charlotte Dacre nos traz protagonistas cheias de nuance e falhas, impetuosas, e senhoras de suas narrativas em obras como Zofloya or the Moor (1806). Vale ressaltar que ambas desafiavam a norma por simplesmente escreverem suas obras e publicarem. Para tudo que algum clássico não se propõe a ofertar, outro foca exatamente nesse aspecto.
Temos autorias negras muito além de Machado de Assis, que não deve ser esquecido de forma alguma, mas é impossível não trazer Carolina Maria de Jesus com Quarto de Despejo. Temos obras sobre os grandes heróis como Odisseu, mas também temos obras sobre uma Srta. Brill indo visitar o parque num fim de semana qualquer.
Há tantos clássicos quanto há estrelas no céu noturno, não canso de receber indicações do cânone de outros países dos quais nunca ouvi falar. Não canso de problematizar sim a questão do cânone, mas me canso, sim, de ouvir que minha gente é burra demais para essas leituras; canso, sim, de ouvir que minha gente não tem voz ou lugar no passado. Informo, com prazer, que a primeira obra da humanidade de que temos registro, a Epopeia de Gilgamesh, retrata amor entre dois homens. O termo homossexual não existia, mas nós interpretamos o mundo com o repertório que temos, não é mesmo?
Eu comecei a me aventurar pelas veredas do cânone, brasileiro e mundial, há pouquíssimo tempo, o que significa que há ainda mais obras que ainda nem conheci lá fora. Ainda mais vozes, ainda mais representações, ainda mais textos que tentam apagar com frequência. Mulheres, pessoas não-brancas, pessoas queer, pessoas de religiões não cristãs; todos eles, guardados em prateleiras, esperando para serem lidos e lembrados. Para Eagleton (2019) por mais que o livro seja um objeto físico que existe mesmo quando o derrubamos atrás da cômoda e esquecemos lá pelos meses seguintes, o mesmo não pode ser dito do texto. Aí entra um princípio linguístico, todo texto só existe quando é significado, e não existe significação sem decodificação — ou seja, leitura, nesse caso.
Não digo que só se leia as autorias mortas, nem que tais obras são superiores às contemporâneas, só quero lembrar que existem e são nossas, da nossa gente, e nós vamos entender tudo que houver para ser entendido no momento da leitura. O ato de ler não é uma partida rankeada nem um teste do DETRAN, não é decisivo, eu posso ter lido Dom Quixote aos 6 anos de idade e não lembrar nada e posso, também, relê-lo aos 25 e me regozijar no que encontrar. Não existe competição. É ler pelo prazer, ler para escutar o que disseram antes de nós, e quem sabe entender. A vida, seus vizinhos, aquela senhora com pele de raposa no parque, o afeto de dois marinheiros ou simplesmente cores no mundo. Porque também podemos ler, entender, problematizar, não gostar, criticar, e nos apoderar dos clássicos.
from Plantinhas do meu jardim digital
Ganhamos uma mudinha. Ela está grande e bem cheinha. Agora quero tentar propagar.
Vou tentar fazer o que diz aqui: Veja como é fácil plantar manjericão a partir do galho!
from Plantinhas do meu jardim digital
Leio principalmente em epubs. Organizo minha biblioteca no Calibre.
Gosto de fazer o registro de leituras do mês/ano sem intenção de bater meta, apenas para ver como anda minha disposição para ler, e também pra ver para onde minha atenção vai. Já usei Goodreads e app de banco de dados. Em dezembro de 2024 organizei meus registros on e offline. Atualmente uso o próprio Calibre para gerar um catálogo mensal que exibe livros lidos e leituras em andamento. Na virada do ano, gerei o catálogo anual. Esse arquivo fica dentro do livro que estou lendo ou, em tempos de virtualização, dentro do Kindle.
Entrei para um clube presencial perto da minha casa. Depois, decidi participar ativamente da tag acronica, que pode ser lida em diversos sites do fediverso. Estou tentando organizar meus escritos online e adotei o eggplant.place para participar do A Crônica, organizado pela Quarta Capa (🐘).
Há pouco tempo (ontem, contando da data de publicação desse post), abri uma página na Z-lib porque a turma do clube presencial vira e mexe tá pedindo arquivos, então fiz uma estantezinha lá.
Indicaram, comentaram, eu vi passar no anúncio no vidro do ônibus? Deu vontade de ler? Fiz uma lista de desejos. Não, os 2000 arquivos no Calibre não são suficientes 🙃
List of Books to Read Before You Die
🗓️ 01/02/26
from Plantinhas do meu jardim digital
Sugestões que eu vou catando por aí.
Nunca subestime uma mulherzinha
O crime do bom nazista
A parede – Marlen Haushofer
Carga viva – Ana Rüsche
Como nascem os fantasmas. Verena Cavalcante
Orbital – Samantha Harvey
5 livros que usam o insólito para abrir feridas na realidade
Nova geração de escritores brasileiros: 10 nomes para ler agora
O Cometa: + O fim da supremacia branca
from Centelhas Literárias
Para quem não me conhece, sou autora de fantasia, estudante de letras, e obcecada por mais coisas do que sou capaz de enumerar aqui. Faz alguns anos que tenho vontade de alimentar um blog para compartilhar minhas impressões, anotações e reflexões envolvendo literatura — até tentei criar algo pelo WordPress uma infinidade de vezes, mas acontece que devo ser burra demais para usar ele direito. Assim, hoje revivo essa centelha em mim e espero poder causar alguns incêndios por aí. Tendo isso posto, o que são “Outras Formas de Leitura”, afinal? Quero deixar claro, de antemão, que não me proponho a criar rankings de leitores, metrificar a qualidade de obras literárias com estrelinhas brilhantes como faço com meus alunos, e muito menos estabelecer uma “forma correta” de se ler. Conforme Compagnon aborda em O Demônio da Teoria, o “bom leitor” verdadeiro é aquele que se adapta e entende as diferenças entre Édipo Rei e O Corcunda de Notredame consciente da forma e do seu conteúdo. Como autora, tendo a falar exaustivamente sobre nosso papel como autorias autônomas, perspectivas de escritura que possam libertar em vez de alienar. Esse blog nasce, também, da necessidade de me distanciar um pouco desse eu tão sujeito-autônomo-autor. Parafraseando Lispector, se pinto pintura e escrevo a dura escritura, por certo também tenho que ler a doce leitura.
Minha ideia vai além de simples resenhas, que também estarão presentes, quero analisar criticamente algumas das obras que tenho lido (em sua maioria leituras obrigatórias da grade ou simplesmente “clássicos indispensáveis” a minha carreira). Assim, pretendo transcrever minhas anotações pessoais dessas obras e incluir uma resenha junto. Para além da análise entre forma e conteúdo, também frisar a minha interpretação e avaliação subjetiva da obra. É uma ruminação literária sem um fim muito específico, algo legal para entusiastas, leitores e pessoas da área. Na descrição inseri também o termo “filosófica” porque considero esse tipo de análise literária extremamente ligado a Filosofia, é uma verdadeira maiêutica quando nos sentamos para ler uma obra e a destrinchar de cabo a rabo. Não por acaso incontáveis autorias eram tão aficcionadas por Filosofia ao longo da história. Esse termo também delimita, para mim, o fato de que não sou crítica literária. Ser Crítico com letra maiúscula é um título que suspeito estar reservado aos doutores e doutoras em literatura. Como graduanda, dou-me a devida insignificância. Se muito, proponho-me a ser um dia, e esses ensaios analíticos acabam tomando a função de ladrilhar meu caminho. Decidi compartilhar essas minhas notas (que já se acumulam há alguns anos) porque noto dois movimentos. O primeiro, tão pontuado na Academia, é que o hábito de analisar literatura criticamente tem se perdido mais a cada ano. Quando digo isso, não levanto juízo de valor, não digo que é uma forma superior de análise nem mais válida, simplesmente é uma recepção de leitura cada vez mais rara. Eu, assim como meus professores, acredito que a humanidade e a Literatura perdem muito com isso, daí que comecei a ensaiar minhas próprias análises por mais simples e mundanas que possam ser. O segundo movimento, que é causado pelo primeiro, é que quando busco resenhas ou análises de obras literárias de meu interesse eu dificilmente acho alguém falando do livro como objeto retórico de análise. Vê-se análises sobre as decisões morais das personagens aos montes, opiniões inflamadas sobre a execução dessa ou daquela trama a torto, e até mesmo avaliação da execução dos tropos listados (que Zeus nos acuda) a direito. Novamente, não acho que esse tipo de análise seja inferior, mas não são, nem de longe, o que eu quero saber para decidir ler uma obra ou não. Filha do meu pai que sou, não vendo o que eu queria, vim cá e estou fazendo.
from De tão poeta morreu pobre
“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 1]
Esse repente em decassílabo sempre me deixava ENCAFIFADO, porque sou nordestino e muita coisa cantada no poema eu não sabia. Aí, com medo de perder minha cidadania, fui pesquisar e vou trazer esse estudo dirigido para cá aos poucos, ilustrando as estrofes e os termos (que acho que são) mais complexos/regionais.
Obs.1 – Algumas coisas são obvias e eu vou ilustrar mesmo assim e outras vão passar, mas se ficar alguma dúvida pode me perguntar, se quiser. Obs. 2 – Não precisa ser nordestino pra valorizar o Nordeste, é só liberdade poética para compor o mote, como haverá outras liberdades ao longo do repente.
ESTROFE 01
Tem de ser de origem nordestina Pra beber água fria de cabaça Calcular a distância de uma braça Entrançar uma cerca de faxina Atirar de espingarda lazarina Palitar com espinho de facheiro Com a faca rapar o juazeiro Fazer pasta pra o dente embranquecer Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro
ANÁLISE:
• Cabaça é o fruto de algumas espécies da família das cucurbitáceas (mesma das abóboras, pepinos, melões, melancias, buchas vegetais...), eu acredito que principalmente da Lagenaria siceraria (conhecida por Porongo ou cabaceira) que é a mesma que se faz a cuia de chimarrão. Depois de desidratado e limpo vira tipo um copo Stanley do sertão, a proteção do sol deixa a água sensivelmente mais fria, talvez.
• Braça é uma antiga medida do sistema imperial (eca) que equivale a 2,20m. Até onde sei, é uma métrica que se popularizou no meio rural ser utilizada na metragem da terra cedida aos trabalhadores imigrantes.
• A cerca de faxina é construída de varas finas de madeira seca (inclusive é daí que vem o nome, porque faxina também denomina esses gravetos usados geralmente como lenha) entrelaçadas vertical ou horizontalmente, podendo ser construída sem arames, muito usada para cercar terrenos ou conter animais.

• A espingarda lazarina é uma arma de baixo calibre originalmente fabricada por Lazarino Cominazzo, utilizada antigamente para a caça de subsistência de animais de pequeno porte.
• Facheiro ou mandacaru-de-facho (Pilosocereus pachycladus) é uma cactácea endêmica do nordeste, utilizada às vezes para alimentação animal (após retirados os espinhos, que são grandes e numerosos). Ouvi dizer que o nome facheiro é porque os espinhos secos são “inflamáveis”, inclusive os braços secos do cacto eram usados como tochas, tochas essas chamadas de FACHOS, o que também teria originado a expressão Abaixe o facho usada para mandar alguém sossegar ou chamar menos atenção, tal qual quando se “remove a tocha do campo de visão do imimigo”.

• Ziziphus joazeiro é uma árvore de grande porte que produz frutinhos comestíveis (os bodes adoram) e que tem uma casca rica em saponinas, que fazem espuma e tem propriedades de detergentes, por isso a raspa da casca de juá é usada como pasta de dente e em outros produtos cosméticos e medicinais até hoje.
Esse foi o começo do que espero que seja uma série, até a próxima estrofe!