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O que as patas da lacra.ia estão dizendo

Lista dos últimos textos publicados na lacra.ia:

from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão

Da chuva vem o sol

Há tempos sem te ver Tentei esquecer Mas tudo volta É só ver você e sentir Tudo outra vez

E mesmo sem te ter Todo o tempo que Você foi embora Saiba que não desisti Eu te esperei

Queria te contar Tudo que passei As coisas que vivi As vezes que chorei Sem você estar aqui Pra me dizer

Que tudo vai passar: “Da chuva vem o sol” Só que o tempo passou E você mudou Mas tudo bem Eu mudei também

 
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from De tão poeta morreu pobre

Se fossem 30 dias de cadeia Dispensaria advogado Se fossem 30 dias em alto mar Não seria resgatado Se fossem 30 dias de guerra Terminaria condecorado Se fossem 30 dias correndo Não ficaria cansado

Se fossem 30 dias de escuridão Meus olhos nem abriria Se fossem 30 dias de luz Ao sol agradeceria Se fossem 30 dias no inferno Jamais me arrependeria Se fossem 30 dias de calor Nem a suar chegaria

Mas foram 30 dias de paraíso E eu fui abençoado 30 dias de afagos E eu foi reconfortado 30 dias de declarações Eu sempre emocionado

Foram 30 dias de alvoradas E eu esperando seu bom dia 30 dias de madrugadas A noite já não era sombria 30 dias de amores 30 dias de alegrias 30 dias que precedem Infinitos 30 dias.

Para Ana Letícia

 
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from De tão poeta morreu pobre

“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 5]

Essa é a quinta parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe 4ª estrofe

Disclaimer: eu pulei uma estrofe anterior, vou trazê-la agora antes da 5ª, nomeando-a de 05a

ESTROFE 05a:

Tem que ser nordestino bem porreta Pra nos dedos fazer um capitão De farofa, de arroz e de feijão E comer com pimenta-malagueta Com a foice cortar jurema preta Amansar animal passarinheiro Tomar banho com água de barreiro Esgotar a cacimba de beber Tem que ser nordestino pra saber Dar valor do nordeste brasileiro.

ANÁLISE:

Capitão, como o próprio poeta explica no verso seguinte, é um bolinho feito amassando-se o feijão e a farinha com as mãos no momento da alimentação. Também pode ser chamado de raposo/raposa ou macaquinho.

Jurema preta (Mimosa tenuiflora) é uma espécie arbórea da caatinga, de galhos finos, escuros e espinhosos.

Foto colorida da árvore comentada, apesar de alta tem o tronco e galhos delgados e folhas ralas e pequenas

Animal passarinheiro é aquele que se assusta fácil com objetos ou movimentos que ocorram ao seu redor, muito usado para descrever cavalos que não passaram por processo de doma.

Cacimba e barreiro são duas formas de captação e armazenamento de água, sendo a cacimba uma espécie de poço escavado em locais úmidos para obtenção de água subterrânea e o barreiro é uma trincheira feita para captar água da chuva que escoa pela superfície do solo.

Foto colorida de um homem coletando água de um barreiro

ESTROFE 05:

Tem que ser nordestino cabra macho Pra na cerca fazer um passador Com as ervas inventar um lambedor Preparar nó de porco e barbicacho Perseguir passarinho com um facho Botar uma careta em marrueiro Com a canga prender pai de chiqueiro Pra na cerca dos outros não caber Tem que ser nordestino pra saber Dar valor o nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Passador ou passadiço é uma estrutura semelhante ao uma pequena escada, geralmente feita de madeira rústica e montada sobre uma cerca de arame farpado, para permitir que uma pessoa passe de um terreno para o outro sem precisar se deslocar até a entrada desse espaço delimitado

Foto colorida da estrutura comentada

Lambedor é um xarope natural e caseiro feito com mel, plantas medicinais, especiarias e etc, para o tratamento de tosse e outros sintomas de gripe, principalmente.

Nó de porco (também chamado de volta do fiel) e barbicacho são tipos de nós usados para amarrar cargas e animais. Barbicacho também pode se referir ao laço que passa por baixo do queixo para prender o chapéu a cabeça.

Perseguir passarinho com um facho é uma técnica de caça de subsistência ou captura de animais, onde se utiliza uma lanterna (ou outra fonte de luz) para ofuscar a visão de pássaros a noite e facilitar a apreensão.

Careta é um anteparo, uma máscara, confeccionada geralmente em couro, utilizada para cobrir os olhos de animais defensivos e/ou reativos e facilitar sua condução, protegendo as pessoas e o próprio animal. Marrueiro inclusive refere-se a um touro bravo, não domado.

Foto colorida de um bovino caramelo usando uma careta de couro, sendo conduzido por uma corda por um vaqueiro a cavalo com um cachorro ao lado,, por uma estrada de terra

Canga ou cangalha é uma estrutura feita com madeira de galhos de árvores, formando como se fosse um triangulo ao redor do pescoço ods animais, para evitar que eles passem por entre os arames dos cercados. O pai de chiqueiro é o nome dado ao macho caprino adulto, o bode reprodutor da criação, que muitas vezes tenta passar da cerca em busca de fêmeas no cio, por exemplo.

Foto colorida de vários caprinos de tamanhos e cores variadas usando cangas no pescoço

Até a próxima estrofe!

 
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from Plantinhas do meu jardim digital

Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes

Uma senhora católica encontra uma sacola com pílulas suspeitas e decide experimentar um barato que a leva até o padre Cícero, uma lavadeira tenta entender os desejos da filha, uma mototáxi tenta começar um novo trabalho e enfrenta os desafios que seu gênero representa ― Jarid Arraes narra a vida de mulheres com exatidão, potência e uma voz única na literatura brasileira contemporânea.

“O leitor se surpreenderá com a originalidade e a fluência da voz que aqui, nestes contos, enfrenta e revela o emaranhado de contradições que cada um de nós carrega.” – Maria Valéria Rezende

Vencedor de melhor livro de contos pelo APCA 2019.

De onde eles vêm, de Jeferson Tenório

O romance acompanha Joaquim, um estudante de Letras em Porto Alegre nos anos 2000, um dos primeiros cotistas a entrar na universidade pública. Entre o cuidado com a avó doente, o desemprego e o preconceito, ele tenta se manter firme em seu amor pelos livros.

A obra mostra como o racismo e a desigualdade moldam trajetórias, mas também como a literatura pode ser uma forma de resistência e cura.

Puro, de Nara Vidal

Na década de 1930, Santa Graça, em Minas Gerais, poderia ser um vilarejo idílico, “referência de virtude e limpeza no território nacional” — e é nisso que alguns de seus habitantes estão tentando transformá-la. O casarão onde vivem Lázaro, menino de seus quinze anos, e as três velhas que o adotaram quando bebê abandonado é o epicentro desta narrativa que toma rumos cada vez mais surpreendentes. Neste novo romance, Nara Vidal explora, com a maturidade de quem está acostumada a tecer histórias em diversos gêneros, temas duros, sem ter medo de colocar no papel as ações e os pensamentos mais desafiadores de seus personagens.

Com uma prosa direta, Nara Vidal envolve os personagens no contexto histórico do fortalecimento do movimento eugenista brasileiro, num romance inovador e, acima de tudo, corajoso.

Clube de Leitura Escambo Cultural

 
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from De tão poeta morreu pobre

Maldita seja a distância, que me separa de seus abraços Porém, benditos sejam os caminhos que me levam a você Abençoados sejam cada um de meus passos

Cruéis são as fotografias, que não capturam sua divindade Entretanto, gloriosas são as linhas de seu sorriso A sublime causa da minha felicidade

Abominável o homem que inventou os mensageiros Todavia, venturosas são tuas palavras Magnificas são as letras nas quais me deleito

Perversa é a saudade que caminha ao meu lado Mas, felizardo sou eu E minha certeza de ser amado.

Para Ana Letícia

 
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from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão

Voz e luz

Um pouco de voz Um pouco de luz Tudo que me falta Tudo que me exclui Um pouco de nós Afasta quem fui A mão que me cala Na contraluz do véu

Tenho tanto pra dizer Mas no hora não sai Tento me entender Tento achar minha paz Tento me esquecer São memórias demais E a mundo não para O mundo não para

Vejo bem você E ancoro no cais Mas a noite o mar Leva o breu e desfaz Fecho os olhos pra ver E escutar minha voz Mas o vida não para O vida não para de passar

E a mundo não para O mundo não para de girar

Ouça minha voz Sinta minha luz Não deixe que eu Me perca no mar

Com meu pouco de voz e luz Um pouco de voz e luz

 
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from De tão poeta morreu pobre

“Tem que ser nordestino pra saber/dar valor ao Nordeste brasileiro” — Sebastião da Silva e Waldir Teles [PARTE 4]

Essa é a quarta parte da análise, caso não tenha lido as anteriores:

1ª estrofe 2ª estrofe 3ª estrofe

ESTROFE 04

Nordestino é de raça curiosa Compreende o amiudar do galo Cedo aprende a fazer cuscuz de ralo Colher fruta de palma saborosa Separar manga espada, manga rosa Curar dores com sebo de carneiro Muito crente chamar de curandeiro E roubar santo na seca pra chover Tem que ser nordestino pra saber Dar valor ao Nordeste brasileiro

ANÁLISE:

Amiúde pode significar “Que ocorre de maneira repetida; frequente”, como Zé Ramalho também usa em “Chão de Giz” pra se referir aos jornais de folha, então, o amiudar do galo pode-se compreender como o canto rotineiro de toda manhã.

Cuscuz de ralo é aquele que é feito do milho ralado na hora.

Foto colorida de um homem sentado ao ar livre em um banco rústico de madeira, ralando espigas de milho num ralador metálico cujo produto cai em uma bacia de metal a sua frente. Ele usa boné, camisa de manga longa laranja, calça jeans escura e botas

• A mais famosa fruta de palma é conhecida como figo-da-índia (Opuntia ficus-indica)

Foto colorida da planta mencionada, uma cactácea (palma) com vários frutos amarelados no topo dos cladódios

• O sebo ou gordura dos ovinos era utilizada para tratamento de machucados e dores. Se priorizava a obtenção da gordura visceral, sobretudo a da glândula adrenal, responsável pela produção do cortisol, que por sua vez tem função anti-inflamatória, regulando o sistema imunológico, então talvez daí venha o princípio ativo. Os lipídios por si só podem interagir com as membranas celulares dos microorganismos impedindo sua proliferação, além de proteger ferimentos do contato com o ar e sujidades e hidratar a pele, por isso usada até hoje como medicamento e cosmético.

• Uma tradição antiga de roubar uma imagem de São José, o “padroeiro da chuva”, até o fim do período chuvoso, para que o santo não abandonasse os sertanejos e a colheita fosse produtiva, depois sendo devolvido ao seu local original.

Foto de tom avermelhado de várias pessoas numa procissão carregando velas e uma imagem de São José

Até a próxima estrofe!

 
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from De tão poeta morreu pobre

Antes de ler: este texto é baseado na poesia “slam” OCD de Neil Hilborn onde ele versa sobre como é se apaixonar tendo TOC, adaptando para a minha visão que tenho transtorno de ansiedade.

Desde a primeira vez que eu soube da sua existência, as minhas várias previsões de futuros fodidos cessaram imediatamente. Todos os arrependimentos por tudo que fiz ou deixei de fazer, assim como os desejos de finitude simplesmente sumiram. Quando você tem ansiedade generalizada vive sempre rodeado de demônios. Mesmo antes de dormir, deitado confortavelmente na minha própria cama, na segurança do meu próprio quarto, circundado de várias paredes com vários centímetros de alvenaria, eu estou sempre pensando:

E amanhã? E ontem? E aquele “sim” que ignorei? E aquele “não” que minto para mim mesmo dizendo que superei?

Mas quando eu a vi, tudo que vinha a minha cabeça eram aqueles olhos. Nem passado, nem futuro, nem oportunidades perdidas, nem erros cometidos: eram apenas eu, o aqui, o agora e aqueles olhos, envoltos numa despretensão contraditória para alguém tão próximo da perfeição. Eu sabia que devia falar com ela. E eu falei como sabia falar, como conseguia falar. Não eram coisas bonitas, mas por algum motivo ela achou lindo. Eu achava lindo tudo nela. E naquele momento eu soube que faria qualquer coisa por aquela mulher. Por ela eu parei de me preocupar que não sou suficiente. Por ela eu comecei a gostar mais de mim. Por ela eu me sinto confortável dentro da minha pele. Por ela eu durmo feliz em acordar no dia seguinte. Por ela eu aprendi a conversar e perdi o medo de notificações no meu telefone. Por ela eu pauso a música que preenche o vazio da minha cabeça, pra ouvir a voz que só ela tem que preenche não só meus pensamentos, mas também o meu sentir. Por ela eu tive cuidado comigo pela primeira vez. Por ela eu voltei a sair de casa e enfrentar de peito aberto o sol draconiano que paira sobre nossas cabeças. Por ela eu parei de odiar meus sonhos acordados. Por ela eu passei a sonhar acordado ainda mais. Por ela eu acordo dos meus sonhos mais deliciosos. Porque com ela, pela primeira vez, a realidade é melhor que o sonhar.

Para Ana Letícia

 
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from meu sorriso é uma faca que corta essa introversão

Estação lunar

Alo estação Alguém na escuta? Temo que não A mensagem é curta:

“Estou suspensa no espaço Sem estação pra ancorar Minha nave plana muito alto Sem um mapa estelar Eu me perco e eu me acho Mas sem ter pra onde voltar Minha missão é um passo em falso Quem virá me resgatar?”

Estação lunar Solicito resgate Se alguém me escutar Segue minha mensagem:

“O infinito me olhou e o encarei Vaguei entre estrelas e apaguei Em meio a imensidão desvaneci Quem me escutar me encontre aqui”.

 
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from Plantinhas do meu jardim digital

Andei lendo debates sobre a identidade latino-americana de brasileiros. Eu, como moradora da Zona Oeste, entendo bem esse movimento tô dentro – tô fora: quando se fala em “carioca”, fala-se de quem? Depende de quem fala, para, quando e de onde fala. ___

Nós, latino-americanos

Somos todos irmãos mas não porque tenhamos a mesma mãe e o mesmo pai: temos é o mesmo parceiro que nos trai. Somos todos irmãos não porque dividamos o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos não porque tenhamos o mesmo braço, o mesmo sobrenome: temos um mesmo trajeto de sanha e fome. Somos todos irmãos não porque seja o mesmo sangue que no corpo levamos: o que é o mesmo é o modo como o derramamos.

Ferreira Gullar. In: Barulhos (1989)

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Latino – Disstantes

https://song.link/y/W9LfkZGHtEY Vídeo. Apresentação ao vivo. 2:55


vídeos

  • Não foi só música. Canal @valerumlivro. Tatiany Leite mostra livros que dialogam com a apresentação de Bad Bunny no Super Cumbuca.

  • série América Latina. Canal @Normose_

América Latina é uma farsa

América Latina é invenção do Silvio Santos

#música

 
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from fidarossa

Ainda quero construir um brinquedo desses aqui em casa: https://dri.es/my-solar-powered-and-self-hosted-website

A propósito, já tem mais de 10 anos que tenho dois computadorzinhos do tipo #sbc (computador de placa única), que vivem na eterna espera do dia que vou poder me dedicar a isso.

Depois que conheci a preca.rio.br, fiquei instigado a deixar de esperar, fazer do jeito que der e ver no que isso vai dá.

#autohospedagem #solar #caseira #selfhost #selfhosting

 
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from Centelhas Literárias

Sobre os Clássicos

Mesmo que tenha crescido numa casa com muitos livros, clássicos em sua maioria, acho que sempre tive a impressão de que essas obras “não eram pra mim”. Fosse pelo simples fato de que Percy Jackson soava muito mais legal ou porque parecia lógico que nenhum deles falaria nada que me interessasse. Assim, cheguei à vida adulta com centenas de livros lidos nas costas, mas os poucos clássicos que lera, integralmente, restringiam-se à minha primeira infância em que muito mais rabiscava os livros do que lia.

Não consigo lembrar bem dessas obras que me acompanharam enquanto era alfabetizada, o micro-cânone disponível na estante dos meus pais era recheado de tremas, cousas e pharmacias. Adulta, parecia que me faltava muito para ousar tocar empeças tão sagradas da literatura. Precisava ler mais, muito mais, sobre incontáveis coisas, antes de sequer pensar em compreender a profundidade de O Cortiço ou um Dom Casmurro.

Em algum ponto da vida, clássicos começaram a significar duas coisas para mim: velho e complicado. Que criança leria qualquer coisa apresentada dessa forma? Eu certamente não, o que é irônico, já que o primeiro livro que me lembro de pegar na vida foi Dom Quixote de la Mancha. Não que eu lembre muito além do fato que gostava muito do livro.

De dois ou três anos para cá, tive a feliz surpresa de descobrir que clássicos são, por definição, para todos. Podem até não ser sua leitura favorita, podem não te tocar como tocaram outros, você tem até o direito de pensar que foi um desperdício do seu tempo e do seu dinheiro aquela obra específica. Mas, como compêndio, é difícil dizer que os clássicos são um único adjetivo de qualidade. Nem só “bons”, nem só “ruins”. Por isso decidi escrever esse texto.

Nasci pobre, numa casa que calhava de ter mais livros do que comida com frequência, nasci como minoria de gênero e nasci brasileira. São todas características que me levaram a crer por muito tempo que nenhum clássico poderia ser para mim. Hoje me identifico também como queer em toda grandeza e nuance dessa palavra. Excêntrica, disruptiva e subversiva sempre que possível. Por muitos anos, ouvi que essas obras não falavam de gente pobre, de gente queer, de gente latinoamericana como eu conhecia. Não os sorrisos plásticos da Paulista, o sol idolatrado de Ipanema, mas as bocas cheias de dentes e fome desse país, as mãos sujas de terra e as costas sempre grudando de suor na camisa em um ônibus apertado.

Creio que muitos de vocês já tenham ouvido isso também — e até acreditado — e escrevo esse texto com a simples intenção de avisar: isso é mentira.

O cânone é, sim, majoritariamente homem, branco e burguês pelo Ocidente inteiro (não ouso opinar no cânone do Oriente, se é que utilizam a mesma terminologia, já que meu contato se limita a dois formalistas russos). Isso se dá, simplesmente, porque nossa sociedade é misógina, racista e capitalista. Nossa literatura não pode se isolar do contexto no qual está inserida, mas ainda pode subverter, questionar e até ousar sonhar com alternativas a esse contexto.

Para além das vozes autorais diversas, tento eu mesma recuperar cada mulher esquecida dentro do gótico com tudo que posso, temos uma infinidade de mundos possíveis. Recentemente li Esfinge, um clássico nacional escrito por Coelho Netto, e esse livro publicado em 1907 elabora sutilmente questões de sexualidade e gênero no calor do Rio de Janeiro. Tudo com um toque de mistério. Na linha da questão da sexualidade temos O Retrato de Dorian Gray (1890), Moby Dick (1851), Carmilla (1872) e até Drácula (1897) como clássicos que retratam a questão (uns como foco, outros por puro preconceito de seus autores). Na crítica à aristocracia há O Vampiro (1819) de Polidori, na crítica à monstruosidade dos homens Frankenstein (1818).

Se Ann Radcliffe escrevia mulheres em padrões conformistas com as noções de gênero de sua época, como vemos em Os Mistérios de Udolpho (1794). Charlotte Dacre nos traz protagonistas cheias de nuance e falhas, impetuosas, e senhoras de suas narrativas em obras como Zofloya or the Moor (1806). Vale ressaltar que ambas desafiavam a norma por simplesmente escreverem suas obras e publicarem. Para tudo que algum clássico não se propõe a ofertar, outro foca exatamente nesse aspecto.

Temos autorias negras muito além de Machado de Assis, que não deve ser esquecido de forma alguma, mas é impossível não trazer Carolina Maria de Jesus com Quarto de Despejo. Temos obras sobre os grandes heróis como Odisseu, mas também temos obras sobre uma Srta. Brill indo visitar o parque num fim de semana qualquer.

Há tantos clássicos quanto há estrelas no céu noturno, não canso de receber indicações do cânone de outros países dos quais nunca ouvi falar. Não canso de problematizar sim a questão do cânone, mas me canso, sim, de ouvir que minha gente é burra demais para essas leituras; canso, sim, de ouvir que minha gente não tem voz ou lugar no passado. Informo, com prazer, que a primeira obra da humanidade de que temos registro, a Epopeia de Gilgamesh, retrata amor entre dois homens. O termo homossexual não existia, mas nós interpretamos o mundo com o repertório que temos, não é mesmo?

Eu comecei a me aventurar pelas veredas do cânone, brasileiro e mundial, há pouquíssimo tempo, o que significa que há ainda mais obras que ainda nem conheci lá fora. Ainda mais vozes, ainda mais representações, ainda mais textos que tentam apagar com frequência. Mulheres, pessoas não-brancas, pessoas queer, pessoas de religiões não cristãs; todos eles, guardados em prateleiras, esperando para serem lidos e lembrados. Para Eagleton (2019) por mais que o livro seja um objeto físico que existe mesmo quando o derrubamos atrás da cômoda e esquecemos lá pelos meses seguintes, o mesmo não pode ser dito do texto. Aí entra um princípio linguístico, todo texto só existe quando é significado, e não existe significação sem decodificação — ou seja, leitura, nesse caso.

Não digo que só se leia as autorias mortas, nem que tais obras são superiores às contemporâneas, só quero lembrar que existem e são nossas, da nossa gente, e nós vamos entender tudo que houver para ser entendido no momento da leitura. O ato de ler não é uma partida rankeada nem um teste do DETRAN, não é decisivo, eu posso ter lido Dom Quixote aos 6 anos de idade e não lembrar nada e posso, também, relê-lo aos 25 e me regozijar no que encontrar. Não existe competição. É ler pelo prazer, ler para escutar o que disseram antes de nós, e quem sabe entender. A vida, seus vizinhos, aquela senhora com pele de raposa no parque, o afeto de dois marinheiros ou simplesmente cores no mundo. Porque também podemos ler, entender, problematizar, não gostar, criticar, e nos apoderar dos clássicos.

 
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